quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Trilha do Dia




Nelson Rodrigues, A Menina sem Estrela


Rabid



“[...] vinha o caminhão de limpeza pública, e ia recolhendo e empilhando os defuntos. Mas nem só os mortos eram assim apanhados no caminho. [...] E, então, a carroça, ou o caminhão, parava. O cadáver era atirado em cima dos outros. Ninguém chorando ninguém.”

A Clint Eastwood Movie


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Trilha da Noite



Fragmentos de uma Autobiografia, Roberto Rossellini


The Fly por Inácio Araújo

Há duas características que tornam apavorantes as mutações que costumam viver os personagens de David Cronenberg. A primeira é que vivem a mutação em estado de euforia. A segunda é que a mutação é terrivelmente concreta.

Se assistimos a "A Mosca de Cabeça Branca", que Kurt Neumann fez em 1958, logo percebemos seu caráter abstrato. Já o "remake" feito 1986, "A Mosca", é quase insuportavelmente mergulhado no sensível.

Parece que a Neumann só interessava a idéia de um homem transformando-se em inseto, perdendo sua humanidade por buscar os limites da existência. A Cronenberg isso também interessa, mas apenas como decorrência da transformação física em si. Eis o que torna o filme tão repugnante quanto atraente.

Aqui, Jeff Goldblum é o cientista que realiza experiências de transporte da matéria no espaço, como que desmontando e remontando corpos átomo por átomo. Como bom cientista cronenberguiano, ele é sua própria cobaia.





Durante a experiência acontece o que todos sabemos: uma mosca intromete-se no processo. A partir daí, começa a transformação do cientista.

De início, ele é só alegria. Sua força torna-se descomunal, ele parece esses mastodontes de academia de musculação. Não é mais o conhecimento que o inspira, mas a força bruta.

Não será assim até o final, pois a partir de certo ponto o lado animal que ele descobre em si torna-se "o" lado, e a situação beira a tragédia, pois as características humanas tendem a minguar dolorosamente.





Ninguém melhor do que David Cronenberg tem intuído o homem mutante da passagem do século 20 para o 21 e sua angústia: somos a experiência errada de um deus menor, ou seremos o deus de nós mesmos?

sábado, 14 de janeiro de 2017



Carlito's Way

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição


Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor


E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
 

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
 
 

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