segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Trilha do Dia



(John Belushi e uma fã mirim durante o intervalo de gravações de Animal House.)

Into the Night


"Um Romance Muito Perigoso poderia muito bem ser uma espécie de centro secreto da carreira de John Landis. Centro secreto: aquele filme que geralmente nunca é tido como um dos principais filmes do diretor, às vezes é admirado por muitos mas jamais considerado típico, mas que mesmo assim consegue iluminar os principais aspectos da carreira do artista como nenhum outro. E por que este filme, no meio de tantos outros, ocuparia esse posto? Uma primeira possibilidade: por ser o filme de Landis que em seu começo mais parece dissociado de qualquer experiência com o gênero, um filme entregue ao macrogênero do drama humano. Quatro imagens de Jeff Goldblum revelam sua personalidade cindida, um retrato frio e seco de café da manhã a dois terminado por um beijo na testa e um "have a nice day", imagens de desconhecidos tristes ou enfurecidos tomadas durante um engarrafamento no caminho para o trabalho, as agruras de permanecer acordado fazendo tarefas soporíferas ou estando presente em reuniões com o chefe. Mais liricamente talvez do em que seus outros filmes, Landis compõe com precisão e secura, em Um Romance Muito Perigoso, o retrato da vida no cotidiano do homem comum, indiferenciado, o personagem recorrente em seu cinema. Todo esse cenário existencial em que o início do filme nos instala é algo raro, não só no cinema americano. Ele nos instala num terreno apenas poucas vezes privilegiado pela arte, mas disseminado em nossas vidas (um exemplo anterior na obra de Landis: a passagem da tarde para a noite antes da transformação em Um Lobisomem Americano em Londres, espécie de remake landisiano de Meshes of the Afternoon) Uma proposta improvável, a de John Landis como maior poeta do ennuide sua época no cinema americano?


O título original diz "dentro da noite", e refere-se à jornada de um insone que vive geralmente o dia – as doze horas das vinte e quatro diárias em que somos iguais a todas as outras pessoas – e por uma série de coincidências adentra a noite protegendo uma beldade loira (Michelle Pfeiffer) de um grupo de gângsters iranianos (entre os quais o próprio Landis, num papel silencioso e hilariante) e que lhe acaba abrindo a possibilidade de adotar uma outra vida completamente diferente da que vivia. Intriga pra lá do comum, mas que em Landis adquire uma densidade própria de um poeta do tédio e da passagem do tédio para a aventura. Curioso que 1985 tenha sido o ano de mais outro filme com incursões de coincidências absurdas pela madrugada: Depois de Horas, de Martin Scorsese. Mas ali onde Scorsese vê a possibilidade de decantar a tensão urbana, a geografia da cidade, a tensão crescente do personagem e do filme, e, no limite, a redenção, Landis vê nessa poesia da madrugada uma oportunidade para mudança efetiva de registro, mas com a mesma manutenção de um olhar impassível, quase monótono para a progressão dos acontecimentos: Jeff Goldblum desarma o savak contando a ele a desgraçada história de sua vida, não apontando armas; a perseguição à amiga de Diana/Pfeiffer na praia assumindo uma neutralidade de filmagem em relação à ação que deriva muito mais da banalidade de gestos estúpidos e insensatos do que de algo que faça a marca dos filmes do gênero – o comentário de um vizinho para sua esposa vindo completar o sentido de algo abrupto e bizarro que irrompe no cotidiano alheio e provoca uma ausência de reação.



Qual é o valor de um instante? Como se passa de um registro de vida, modorrento e tedioso, para outro, ativo e vibrante? Essa mudança é ela mesma desejável, ou apenas uma fantasia? O filme não responde com uma tese, mas antes com diversas amostras que servem como hipóteses: o Cadillac do irmão de Diana, que ganha a vida fazendo imitações de Elvis Presley, em que está escrito "The King lives" (como ser "normal" dirigindo um carro desses?); um homem (Don Siegel) saindo constrangido de uma cabine de banheiro, e uma mulher desavergonhada (conforme o crédito final do filme) que sai da mesma uma dezena de segundos depois, diante dos olhos permanentemente mornos de Goldblum; uma enorme suíte de hotel aparentemente vazia, fazendo ressoar apenas o barulho da televisão, e que se revela o cenário de um banho de sangue entre quadrilhas; o antigo magnata boa-vida que vive agora estirado numa cama, inválido, incapacitado de dirigir qualquer um dos maravilhosos e caríssimos carros que ostenta na garagem. Situações que não passam de um escalonamento de ocorrências individuais que ilustram e relativizam o dilema do personagem central, e como a "mundanidade" de John Landis adiciona uma camada de pura especulação sobre a camada de thriller absurdo em que a história se desenvolve.


Espécie de O Mágico de Oz em que a personagem de Dorothy seria a exemplificação da insuficiência existencial de um determinado modo-de-vida (logo, engajamento social em algum nível, e isso sempre está de alguma forma presente, mesmo que de viés em Landis) e da tentativa de constituição de um outro, Um Romance Muito Perigoso trabalha o encantamento da madrugada de uma forma muito curiosa. Nada do mundo encantado que sai da cabeça de Dorothy, mas um mundo que não é exatamente o esperado por Ed Okin – desejoso de fugir de uma vida formatada que é mais aviltante do que a própria traição da mulher –, cujos deslumbres residem unicamente na maneira que têm de propulsá-lo para fora de suas expectativas de vida de então. É nesse sentido que o encontro com David Bowie é uma espécie de encontro mágico, que só serve para que alguém de dentro deste novo mundo entregue a Ed seu passaporte ("Você é bom nisso"), revele a ele sua vocação, aparecendo do nada e desaparecendo quando um carro de polícia se insinua pela avenida. Interlúdio brilhante que faz o filme confirmar a certeza dos passos de Ed, ao mesmo tempo que leva o desafio a um segundo nível: é preciso agora não mais fugir de sua vida (ou dos savaks), mas negociar seu lugar dentro do novo território. Uma vez que o passaporte está na mão, todas as senhas estão disponíveis. Não foi apenas um sonho: sua guia voltará para buscá-lo."


John Belushi



"(...) Há ainda John Belushi. Nele Landis encontra seu ator perfeito. Há uma predisposição nos filmes do diretor por performances expansivas em que o ator domina todo o espaço. O único outro comediante que viria a suprir a ausência de Belushi depois de sua morte para Landis seria Eddie Murphy (Jeff Goldblum se revelaria um protagonista igualmente efetivo em Um Romance Perigoso, mas nesse caso o processo é o inverso, com uma performance comatosa contrastando com um espaço hiper-ativo). Landis por sua vez permitiu a este brilhante comediante um contato com uma sensibilidade cômica que lhe servia, assim com uma mise en scène organizada. Trata-se quase de uma atuação de cinema mudo (ele mal fala), subvertida pelo ator que investe o filme de uma forte agressividade; é como se o ator se pretendesse atacar o mundo a cada plano. Há um elemento de frescor que o ator impregna em cada seqüência que participa, como se algo de inesperado surgisse naturalmente a cada momento. (...) Belushi na verdade tem relativamente pouco tempo em cena, mas domina todo o filme, o tira dos eixos, dá a Landis o corpo que mais perfeitamente articula suas idéias cômicas."



Trading Places




"Parece mentira, mas houve um tempo em que divertir e raciocinar não eram coisas antagônicas no cinema. Trocando as Bolas ilustra esse momento, mas, sobretudo, ilustra esse espírito que em 1983, quando o filme é feito, estava um tanto agonizante. Não era apenas o espectador que se divertia. Também quem fazia o filme dava a impressão de participar da festa (ou mesmo de iniciá-la). No caso, John Landis trata de dois magnatas da Bolsa que fazem uma aposta segundo a qual podem transformar um operador de futuro num pobre coitado e um miserável num prodígio das ações. Há muito de muita coisa: a Bolsa, a crueldade, o capitalismo, o sentimento do poder desmedido. Mas tudo isso submete-se ao espírito e a seu humor."


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Trilha do Dia



Nelson Rodrigues, A Menina sem Estrela [2]


Dead Ringers



"Quem quiser nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da própria razão do existir: ser é ousar ser."

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Trilha do Dia




Nelson Rodrigues, A Menina sem Estrela


Rabid



“[...] vinha o caminhão de limpeza pública, e ia recolhendo e empilhando os defuntos. Mas nem só os mortos eram assim apanhados no caminho. [...] E, então, a carroça, ou o caminhão, parava. O cadáver era atirado em cima dos outros. Ninguém chorando ninguém.”

A Clint Eastwood Movie


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Trilha da Noite



Fragmentos de uma Autobiografia, Roberto Rossellini


The Fly por Inácio Araújo

Há duas características que tornam apavorantes as mutações que costumam viver os personagens de David Cronenberg. A primeira é que vivem a mutação em estado de euforia. A segunda é que a mutação é terrivelmente concreta.

Se assistimos a "A Mosca de Cabeça Branca", que Kurt Neumann fez em 1958, logo percebemos seu caráter abstrato. Já o "remake" feito 1986, "A Mosca", é quase insuportavelmente mergulhado no sensível.

Parece que a Neumann só interessava a idéia de um homem transformando-se em inseto, perdendo sua humanidade por buscar os limites da existência. A Cronenberg isso também interessa, mas apenas como decorrência da transformação física em si. Eis o que torna o filme tão repugnante quanto atraente.

Aqui, Jeff Goldblum é o cientista que realiza experiências de transporte da matéria no espaço, como que desmontando e remontando corpos átomo por átomo. Como bom cientista cronenberguiano, ele é sua própria cobaia.





Durante a experiência acontece o que todos sabemos: uma mosca intromete-se no processo. A partir daí, começa a transformação do cientista.

De início, ele é só alegria. Sua força torna-se descomunal, ele parece esses mastodontes de academia de musculação. Não é mais o conhecimento que o inspira, mas a força bruta.

Não será assim até o final, pois a partir de certo ponto o lado animal que ele descobre em si torna-se "o" lado, e a situação beira a tragédia, pois as características humanas tendem a minguar dolorosamente.





Ninguém melhor do que David Cronenberg tem intuído o homem mutante da passagem do século 20 para o 21 e sua angústia: somos a experiência errada de um deus menor, ou seremos o deus de nós mesmos?

sábado, 14 de janeiro de 2017



Carlito's Way

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição


Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor


E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
 

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
 
 

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