terça-feira, 17 de novembro de 2015

Brasil x Peru

Trilha da Noite





Rust Cohle






"A abundância de faces que se sucediam ininterruptamente em sua cabeça criou a lenda de que ele era mágico; mas seu rosto permanecia absolutamente infantil; o rosto dos outros homens é que se moviam com premeditada desigualdade; muitos de seus companheiros se fantasiaram de anões para desapontá-lo; inúmeros se metamorfosearam em deuses secundários, em coisas estanques, em manequins, em pássaros empalados. Pretenderam descobrir a sua tumba, e não conseguiram: ele às vezes se declarava morto, porque a morte era apenas uma continuação. Contudo, desenterraram milhares de retratos de sua vida contínua com todos os defuntos que cruzaram a sua órbita: ele se reviu e chorou diante dos documentos de sua consagração." 


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

domingo, 1 de novembro de 2015


"Tinha dezesseis anos e me achava numa sala onde exibiam "Alphaville". Hoje em dia, é banal (para os escritores e críticos) que Godard seja apontado, no coração da Nouvelle Vague, como o seu grande inovador; mas na época ele era completamente marginalizado. Ainda consigo ver aquele casal sentado bem diante de mim, levantando-se com apenas dez minutos de projeção. Foi precisamente neste dia que percebi que gostaria de ser cineasta e, também, aquilo que me esperava" (Philippe Garrel).

Le Vent de la nuit



"Aos seis anos, eu era muito mais eu mesmo do que aos dezessete. E, por isso, uma das coisas mais vis que conheço é o que escreveu Jean-Paul Sartre sobre a própria infância. Seu livro As palavras é a cínica, a hedionda falsificação de um menino. Ou mais do que falsificação. É como se o adulto Sartre estuprasse o menino Jean-Paul, num terreno baldio" (Nelson Rodrigues, A Menina sem Estrela).

L'Enfance nue




"The meaning of art is not authenticity but the expression of authenticity."


Agradeço aos caros José Oliveira e João Palhares pelo convite e, desde já, aproveito para divulgar o trabalho.


terça-feira, 27 de outubro de 2015





"A nobreza tem nomes pesados e diferentes como o nome das serpentes (quase tão difíceis como o nome das velhas divindades perdidas), estranhos como os signos e escudos ou animais venerados, totens de velhas famílias, gritos de guerra, títulos, peles, esmaltes — escudos que fecham a família com um segredo, como um sinete sela um pergaminho, um epitáfio, um túmulo."

Kafka, Crumb


segunda-feira, 28 de setembro de 2015



JF: Well, he pissed away a few years of his life playing golf, reading, dallying with another novel and then another novel. And sometimes selling a short story. His life was pretty much fragmented. And then he – at about the time that World War II broke out, he was working for Orson Welles, writing a picture for Orson, with Norman Foster, they were collaborating together. And Orson bought a story from John. And this was scheduled to be filmed immediately that particular Sunday, this was about 1940. And Orson Welles went to Brazil to film another segment of the picture. He was doing a picture called It’s All True, they were four short stories he was going to film, and on this particular night in Brazil when he just arrived, he was standing on the balcony watching some great festivity that goes on in Brazil once a year, like at a carnival, and he stood at the edge of the balcony and peed on the people down below. And he was arrested, thrown in the clink, and ordered out of the country. And that was the end of that particular project."

domingo, 27 de setembro de 2015

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

True Detective



Uma das mais complexas, soturnas, sinfónicas e progressivamente luminosas criações que vi e ouvi nos últimos anos chama-se "True Detective" - que importa se é a chamada série para televisão, uma curta-metragem de dois minutos ou um vídeo arrancado em telemóvel por alguém que não pôde deixar de o fazer sob consequência de paralisar, alguém que descobriu uma refracção inédita, uma poética, duração, narrativa, desconhecido... quem diz o contrário é o mais rasca, inútil e medricas dos moralistas, e, como diz a personagem de Rust Cohle nessa criação - Matthew McConaughey, o mais bestial (de besta mesmo, e portanto com as ténues dádivas conservadas) dos actores - quem dá conselhos fala para si próprio - onde o passado e as acorcovadas questões da criação e da existência e da evolução se unem para assombrar cada passo, cada relação, certeza, credo ou filosofia. Nada ganha resposta - o espaço, o tempo, os eternos retornos, ciclos, Deus, o nada. Cúmulo de uma construção em que o meio orgânico e indomável que nos acolhe - do demónio à florestação - embate com o racional e o humano para um envolvimento de impossível separação; a técnica e ontologia cinematográfica (como diria televisiva ou amadora) nasce e corre por dentro, de onde tudo está certo, por isso belo e terrível, sem uma nota em falso que não a privilegiada a tudo o que existe. Se o citado Faulkner ou Nathaniel Hawthorne presenciassem tal, de certeza quereriam filmar, juntar a imagem e o eco, o que se vê e o que se escuta com o que se pensa ver e se pensa escutar, mais o que transcende a ideia feita e a imaginação; esquecer e convergir na elipse, condensar universos na presença e na respiração antes ou depois das palavras – espelhar e materializar a abstracção e a monstruosidade fantasmática nelas latente. Rust Cohle, Burke Devine, tão opostos, tão semelhantes, ali onde os extremos não só se tocam mas antes de tudo se encontram. Rust, que não quer acreditar nem amar, apenas ser testemunha do embuste e da destruição, sacrifica-se pela terra toda, em alcance também ele imulatório. Ou seja, mais um anjo, maculado e imaculado pelo mais belo acto de continuar, erguendo e destruindo, para a frente. “Por isso não desfalecemos; e ainda que o nosso homem exterior se vá consumindo, o interior, contudo, renova-se dia-a-dia.” lê-se nos Coríntios. Tal é levado não a radicalismos cósmicos mas a necessidades dessas, o combustível da resistência e do avanço, via-crúcis dos honestos e amantes calados. Um dos mais belos, e tão sofrente ou não, personagens que nos falaram. Quando a noite avança, o seu colega possuído por Woody Harrelson, tão em pé como na alvorada, passadas as intempestivas provações, une-se a Rust, já sem evasivas. E a dimensão de ventura que perpassou todo o curso é desmitificada, a metafísica extingue-se, a substância revela-se - no final só há de haver um tempo e um espaço, aglutinados pelo amor. Ficam e ficamos para lá das estrelas, na mais eterna das batalhas, a luz furando na escuridão, a escuridão a precisar da luz, sem barreiras.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015


 
                                                                                                                                                  
(Nuno Crespo) What is this object?
(Pedro Costa) It’s the notebook that I took on my first research trip to Cape Verde. It was for jotting down the usual notes on locations, people, ideas for scenes... I don’t remember now where it started. I think it was halfway through: the first page was the one with the postcard with the Cape Verde stamp showing the back view of three nurses in front of the mountains of Santo Antão alongside a page from the Portuguese daily newspaper, PÚBLICO, with an article on dangerous vaccines that we were exporting to PALOPs (Portuguese speaking African countries)... All things I had to hand, a newspaper and a view of Cape Verde. I stuck the postcard in, the stamp, the vaccines, the nurses. And because I was reading a book by Robert Desnos, I signed his name on the back of the postcard and suddenly the whole story became clear and the film found a sender and a recipient. So, there would be a nurse who accompanied a comatose immigrant worker to Cape Verde, while also bringing death through these dangerous vaccines. I didn’t invent anything, it was in PÚBLICO... And so I carried on: things seen from the front stuck over things seen from the back, halves of things, fragmented things, hidden faces, turned upside down. It was a way of discovering the film that I was in the process of making...


(Nuno Crespo) Wasn’t the scrapbook made spontaneously for the film?
(Pedro Costa) Like every diligent director, I bought a squared notebook to record my production and location notes etc. A script had been written and my plan was to stick closely to it. Furthermore, the whole team had read it and believed in it. This scrapbook was just the first warning sign of what was to come: the erratic behavior, the beginning of my sabotage against the script, the actors, the producer, against myself. If I ever had the misfortune to end up on a film financing jury, I’d be very happy to be shown things like this. I’m not against conventionally written scripts but in a work like this you can see more and – bizarrely – you can even hear more... Obviously this way of ‘visualizing’ the project was really useful for the director of photography and some of the crew members and actors. It gave them an idea of the things that I liked. But the person who spent most time with the scrapbook in his hands was the sound designer. After filming a shot, he would whisper discreetly to me: ‘Well, it was in the book...’




(Nuno Crespo) But are you against traditional scripts?
(Pedro Costa) It must be funny to be a screenwriter for cinema these days: ‘Interior, night. The rain beats against the shutters. Joana can’t sleep. The camera moves in slowly.’ I’m more interested in having feelings and following them irrationally. In the same way, I’m more interested in some people than others, in interiors more than exteriors, walls more than landscapes. On this point, it’s worth remembering the time John Ford was asked whether he liked his epics and westerns. Ford answered: ‘I don’t want to make great sprawling pictures. I want to make films in a kitchen!’ And for me, ‘Casa de Lava’ was when I began to realize these things and make important choices. And a scrapbook like this allows you to do everything that institutions and television don’t. In a script it would always be pretentious, offensive even, to quote Aeschylus or to refer to a drawing by Paul Klee to describe a character. Here one could include the poet Desnos talking in Creole and this type of encounter can be set out and emphasized with complete freedom. This book, which ought to be very technical and authoritative, is the script of a film which fortunately didn’t turn out as it was meant to. The original was a kind of remake of an American film that I loved [‘I Walked with a Zombie’, by Jacques Tourneur] which, in turn, was a variation on ‘Jane Eyre’. Adventures in Cape Verde, volcanoes, zombies, crazy women. And I had the idea of taking the film in a direction that was less concrete, more political or documentary, if you will.





- Quem é Bazárov? - perguntou sorrindo Arcádio. - Quer, meu tio, que lhe diga quem é de fato?
- Faça-me o favor, meu caro sobrinho.
- Ele é niilista?
- Como? - perguntou Nicolau Pietróvitch, enquanto Páviel Pietróvitch erguia a faca com um pouco de manteiga na ponta.
- Ele é niilista - repetiu Arcádio.
- Niilista ─ disse Nicolau Pietróvitch - vem do latim, nihil, e significa “nada”, segundo eu sei. Quer dizer que essa palavra se refere ao homem que… em nada crê ou nada reconhece?
- Pode dizer: o homem que nada respeita - explicou Páviel Pietróvitch, voltando novamente sua atenção para a manteiga.
- Aquele que tudo examina do ponto de vista crítico - sugeriu Arcádio.
- Não é a mesma coisa? - perguntou Páviel Pietróvitch.
- Não, não é o mesmo. O niilista é o homem que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior respeito que mereça…
- E isso está bem? - interrompeu Páviel Pietróvitch.
- Depende, tio. Para alguns está bem e para outros não.
- Vejo que essa doutrina não se refere a nós. Somos homens do século passado e supomos que, sem os princípios (Páviel Pietróvitch pronunciava esta palavra suavemente, à francesa; Arcádio, pelo contrário, proferia à russa, carregando a primeira sílaba), sem os princípios transformados, como você disse em artigos de fé, não é possível dar um passo, nem mesmo respirar. Vous avez changé tout cela, que Deus lhes dê saúde e posto de general. Ser-nos-á muito agradável apreciar a sua obra, senhores… como se chamam mesmo?
- Niilistas - pronunciou claramente Arcádio.
- Bem. Antes havia hegelistas, hoje há niilistas. Veremos como poderão viver no vácuo, no espaço sem ar.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015




(Sheldon Cooper, ou o Seth Putnam com doutorado)

 "A conversação só é fecunda entre seres empenhados em consolidar suas perplexidades" (Cioran).
The Iron Mask (1929) by Allan Dwan and The Testament of Doctor Cordelier (1959) by Jean Renoir. 
These two filmmakers, in these exemplary films, the first following Griffith, the second Chaplin, give us the key to the vault in the great quest undertaken by the cinema: the human face.  Each illustrates in an exemplary way the fiction of a split. The man in The Iron Mask is twice cursed by the Sun-King: his face, because it is identical, must disappear from sight. The rule of dramatic balance in cinema (familiar faces and the hierarchy that follows) is reversed: "secondary elements" (sets, background characters, decoupage… here: the axis of the camera in relation to the table, an almost metallic light that equalizes the pitcher, the cup, the dish, the plate and the mask) are all there to serve what the missing face goes on to say.
At the other extreme: Opale, the nocturnal incarnation of Doctor Cordelier (this is not twin against twin, competing for divine right and disputing the throne, but a man alone -- a modern Jekyll and Hyde -- torn between the order of decency and the overflowing plunder inside of him), threatens to blow up the frame: by his swollen face (that of J.L. Barrault), deformed, horrifyingly ugly, by his menacing growls, by these gestures that escape the body (the trampling of a little girl, the caning of an old man and a cripple over the course of the film), all these are "secondary elements" trembling at their base: at the dawn of the TV drama, Renoir, sensing the innumerable procession of quiet daubs that could be born of this technique, does not shake the coconut tree (never failing to pay-off) and makes the televisual version of Monsieur Verdoux.
Tails: Hollywood and its drapery in a patient search (abandoned today) for origins. Heads: the restorative destruction of any reference or reverence. Griffith and Chaplin, kept alive in the work of Allan Dwan and Jean Renoir, fill out a definition, each in his own way, of the face as a love and reflection of human history.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

quarta-feira, 17 de junho de 2015

domingo, 14 de junho de 2015

Trilha do Dia








"A stone, a leaf, an unfound door; of a stone, a leaf, a door. And of all the forgotten faces. Naked and alone we came into exile. In her dark womb we did not know our mother's face; from the prison of her flesh we come into the unspeakable and incommunicable prison of this earth. Which of us has known his brother? Which of us has looked into his father's heart? Which of us has not remained forever prison-pent? Which of us is not forever a stranger and alone? O waste of loss, in the hot mazes, lost, among bright stars on this most weary unbright cinder, lost! Remembering speechlessly we seek the great forgotten language, the lost lane-end into heaven, a stone, a leaf, an unfound door. Where? When? O lost, and by the wind grieved, ghost, come back again." 

"Pappeln und Wolken", Hans Watzek.

On Seeing the Elgin Marbles


My spirit is too weak — mortality
Weighs heavily on me like unwilling sleep,
And each imagined pinnacle and steep
Of godlike hardship tells me I must die
Like a sick eagle looking at the sky.
Yet ’tis a gentle luxury to weep
That I have not the cloudy winds to keep
Fresh for the opening of the morning’s eye.
Such dim-conceived glories of the brain
Bring round the heart an undescribable feud;
So do these wonders a most dizzy pain,
That mingles Grecian grandeur with the rude
Wasting of old time — with a billowy main —
A sun — a shadow of a magnitude.

quinta-feira, 19 de março de 2015

My Favourite Colour is Gold





Trilha do Dia




"Naturalmente muitas pessoas entendem por Levana o poder tutelar que protege e controla a educação das crianças. Mas não creiam que se trata aqui dessa pedagogia que reina apenas por meio dos alfabetos e das gramáticas; é preciso pensar principalmente nesse vasto sistema de forças centrais que se oculta no seio profundo da vida humana, e que trabalha incessantemente as crianças, ensinando-lhes sucessivamente a paixão, a luta, a tentação, a energia da resistência. Levana enobrece o ser humano que ela protege, mas por meios cruéis. É dura e severa, essa doce ama, e entre os processos que usa para aperfeiçoar a criatura humana prefere, acima de todos, a dor. Três deusas lhe são submissas, e elas as emprega em seus desígnios misteriosos. Assim como há três Graças, três Parcas, três Fúrias, e assim como primitivamente havia três Musas, há três deusas da tristeza. São as nossas Nossas Senhoras das Tristezas.
“Eu as via muitas vezes conversando com Levana, e algumas inclusive conversando comigo. Pois então elas falavam? Oh! não. Esses poderosos fantasmas desdenham as insuficiências da linguagem. Podem proferir palavras através dos órgãos do homem, quando habitam um coração humano; mas, entre si, não se servem da voz; não emitem sons; um silêncio eterno reina em seus reinos... A mais velha das três irmãs se chama Mater Lachrymarum, ou Nossa Senhora das Lágrimas. É ela que, noite e dia, divaga e geme, invocando rostos desaparecidos. Era ela que estava em Roma, quando se ouviu uma voz lamentar-se, a de Raquel, chorando os seus filhos e não querendo ser consolada. Estava também em Belém, na noite em que a espada de Herodes varreu todos os inocentes de seus asilos... Seus olhos são alternadamente meigos e penetrantes, assustados e adormecidos, erguendo-se muitas vezes para as nuvens, frequentemente acusando os céus. Traz um diadema sobre a cabeça. E sei, por lembranças da infância, que pode viajar nos ventos quando ouve o soluço das litanias ou do trovão do órgão, ou quando contempla o desabamento das nuvens do verão. Essa irmã mais velha traz a cinta chaves mais poderosas que as chaves papais, com as quais abre todas as cabanas e todos os palácios. Foi ela que, eu o sei, durante o verão passado, ficou à cabeceira de um mendigo cego, aquele com quem eu gostava tanto de conversar e cuja piedosa filha, de oito anos, fisionomia luminosa, resistia à tentação de se juntar à alegria do burgo, para vagar o dia inteiro pelas estradas poeirentas com seu aflito pai. Por isso, Deus enviou-lhe uma grande recompensa. Quando chegou a primavera, e quando ela própria começava a florir, chamou-a para si. Seu pai cego ainda chora, e sempre à meia noite sonha que segura ainda entre as suas a mãozinha que o guiava e desperta sempre nas trevas que são agora novas e mais profundas trevas... É com a ajuda dessas chaves que Nossa Senhora das Lágrimas se introduz, fantasma tenebroso, nos quartos dos homens que não dormem, das mulheres que não dormem, das crianças que não dormem, desde o Ganges até o Nilo, do Nilo ao Mississipi. E como ela foi a primeira a nascer e possui o império mais vasto, honrá-la-emos com o nome de Madona.
“A segunda irmã se chama Mater Suspiriorum, Nossa Senhora dos Suspiros. Nunca escala as nuvens ou passeia sobre os ventos. Em sua fronte, não há diadema. Seus olhos, se pudéssemos vê-los, não pareceriam meigos, nem penetrantes; não se poderia descobrir deles nenhuma história; encontrar-se-ia somente uma massa confusa de sonhos quase mortos ou restos de um delírio esquecido. Nunca levanta os olhos, sua cabeça, coberta por um turbante em frangalhos, cai constantemente e constantemente olha para o chão. Não chora, não geme. De quando em quando suspira ininteligivelmente. Sua irmã, a Madona, mostra-se por vezes tempestuosa e frenética, delira contra o céu e reclama seus bem-amados. Mas Nossa Senhora dos Suspiros não grita nunca, não acusa nunca, não sonha nunca com a revolta. É humilde até a abjeção. Sua doçura é a mesma dos seres sem esperança... Se murmura algumas vezes é em lugares solitários, desolados como ela, em cidades arruinadas, e quando o sol desceu para o seu repouso. Essa irmã é a visitadora do Pária, do Judeu, do escravo que rema nas galeras;... da mulher sentada nas trevas, sem amor para abrigar a cabeça, sem esperança para iluminar sua solidão;... de todo cativo na prisão; de todos que são traídos e de todos os que são rejeitados; dos que são proscritos pela lei da tradição e dos filhos da desgraça hereditária. Todos eles são acompanhados por Nossa Senhora dos Suspiros. Ela traz também uma chave, mas não tem necessidade dela. Pois seu reino está sobretudo sobre as tendas de Sem e os vagabundos de todos os climas. No entanto, encontra alguns altares nos mais altos postos da humanidade, e mesmo na gloriosa Inglaterra há homens que, perante o mundo, levantam a cabeça tão orgulhosamente quanto uma rena e que, secretamente, receberam sua marca na fronte.
“Mas a terceira irmã, que é também a mais jovem!... Psiu! Falemos dela bem baixinho. Seu domínio não é grande; se o fosse, nenhum ser sobreviveria; mas sobre o seu reino o poder que exerce é absoluto... Apesar do triplo véu de crepe que envolve a sua cabeça, por mais erguida que a traga, pode-se ver por baixo a luz selvagem que escapa de seus olhos, luz de desespero sempre flamejante, nas manhãs e nas noites, ao meio dia como à meia noite, à hora do fluxo como à hora do refluxo. Ela desafia Deus. É também a mãe das demências e a conselheira dos suicídios... A Madona caminha com um passo irregular, rápido ou lento, mas sempre com uma graça trágica. Nossa Senhora dos Suspiros desliza timidamente e com precaução. Mas a mais jovens das irmãs move-se com movimentos imprevistos; salta; tem os pulos do tigre. Não carrega consigo uma chave, pois, embora visite raramente os homens, quando lhe é permitido aproximar-se de uma porta, toma-a de assalto e a arromba. E o seu nome é Mater Tenebrarum, Nossa Senhora das Trevas.
“Tais eram as Eumenides ou Graciosas Deusas (como dizia a antiga lisonja inspirada pelo temor) que assombravam meus sonhos em Oxford. A Madona falava com sua mão misteriosa. Tocava-me na cabeça, chamava com o dedo Nossa Senhora dos Suspiros, e seus sinais, que nenhum homem pode entender, salvo em sonho, poderiam ser assim traduzidos: ‘Vê! Aqui o tens, aquele que na infância consagrei a meus altares. Fiz dele o meu favorito. Perdi-o, seduzi-o, e do alto do céu atraí o seu coração ao meu. Por mim tornou-se idólatra; por mim, cheio de desejos e langores, adorou o verme da terra e dirigiu suas preces ao túmulo verminoso. Sagrado para ele era o túmulo; amáveis eram as suas trevas; santa a sua corrupção. Preparei esse jovem idólatra para ti, querida e meiga Irmã dos Suspiros! Toma-o agora em teu coração e prepara-o para a nossa terrível Irmã. E tu – voltando para Mater Tenebrarum – recebe-o dela por tua vez. Faze com que teu cetro pese sobre sua cabeça. Não permitas que uma mulher, com sua ternura, venha sentar-se junto dele na sua noite. Expulsa todas as fraquezas da esperança, seca os bálsamos do amor, queima a fonte das lágrimas; amaldiçoa-o como só tu sabes amaldiçoar. Assim tornar-se-á perfeito na fornalha; assim verá as coisas que não deveriam ser vistas, os espetáculos que são abomináveis e segredos que são indizíveis. Assim, lerá as antigas verdades, tristes verdades, as grandes, as terríveis verdades. Assim ressuscitará antes de ter morrido. E nossa missão estará cumprida, missão que recebemos de Deus, que é a de atormentar seu coração até que tenhamos desenvolvido as faculdades de seu espírito’.”
II – Levana e As Nossas Senhoras das Tristezas; VIII – Visões de Oxford. Comedor de Ópio. Charles Baudelaire, Paraísos Artificiais.

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