sexta-feira, 19 de outubro de 2012


"Guardei da minha infância o gosto das pessoas corajosas, das pessoas simples, das pessoas que continuam a fazer com tranquilidade seu dever no meio de trapaceiros e de gente ruim. Criticam-me às vezes por esse idealismo. Eu não renego. É verdade que eu acredito numa série de coisas que as pessoas se acostumaram a zombar: o amor, a amizade, e mesmo a justiça, quando ela é viril..."

John Ford, Le Monde

“A coisa que mais me toca no cinema de Ford, algo que desapareceu completamente no cinema, é o fato de os personagens serem confrontados à decepção e ao fracasso, serem obrigados a digerir uma humilhação – diríamos agora uma ferida narcísica – e continuarem a viver mesmo assim, sem chorar como pirralhos. Tenho o sentimento de que no cinema atual os personagens obedecem unicamente às leis dos sonhos. É inimaginável hoje conceber um filme como Fomos os sacrificados (They Were Expendable, 1945). Os personagens de Ford aguentam, continuam mantendo uma certa grandeza.

Outra coisa que também me agrada muito em seu cinema é a capacidade imediata de dar vida a toda uma série de personagens secundários, sempre simples, fortes e que são reconhecidos automaticamente. Quando eu vejo os filmes, tudo parece evidente, mas ao escrever roteiros, noto como é difícil fazer um personagem secundário adquirir clareza e grandeza, simplicidade do trato na multiplicidade das figuras. Para mim, é o produto de um enorme trabalho. É preciso um talento enorme para chegar a isso. A força de Ford é dar uma espessura humana a personagens que são imediatamente tipificados sem cair no clichê. É muito difícil. É um problema de personagens e não de atores.

(...) Todos os filmes americanos de aventura e ação celebram o culto ao individualismo e, no cinema de Ford, é curioso observar as correções muito importantes que o cineasta trouxe a essa ideologia. Para ele, o homem é pequeno, seja ele forte ou fraco, ridículo se comparado à criação, à grandeza do universo. É seu lado pascaliano. De um ponto de vista moral, os personagens e ele mesmo assumem uma ignorância fundamental diante do universo, aceitam a idéia de viver na névoa. É muito raro no cinema, porque isso implica uma modéstia dos personagens e uma profunda modéstia do cineasta diante da criação que não se observa em qualquer outro lugar.”

Jean-Claude Brisseau

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A RODA DA FORTUNA

Um dos clássicos incontestáveis da comédia musical hollywoodiana, produzido pelo genial Arthur Freed, compositor de canções e depois fundador de uma equipe responsável pela
maioria das obras-primas do gênero musical na MGM. (Sobre essa personalidade excepcional, recomenda-se veementemente o livro de Hugh Fordin “The World of Entertainment”, Doubleday, New York, 1975, traduzido pela Ramsay em 1987 sob o título aberrante de “La comédie musicale américaine”.) A pedido de Freed, os roteiristas Comden e Green construíram a sua história a partir das historietas escritas por Howard Dietz e Arthur Schwartz durante os últimos trinta anos. (A historieta que dá seu título ao filme havia sido interpretada em 1931 por Fred Astaire e sua irmã Adèle.) Com Astaire interessado pelo projeto, os roteiristas (que se representam a si mesmos dentro da intriga através dos personagens interpretados por Oscar Levant e Nanette Fabray) criam um papel para o dançarino inspirado na sua idade e em algumas das suas manias (por exemplo, a alergia ao encarar os grandes parceiros.) Minnelli, aqui, não procura jamais revolucionar a estrutura ou o conteúdo da comédia musical. Ao contrário, The Band Wagon representa o apogeu da forma mais tradicional do gênero, que é baseada na preparação de um espetáculo e nasceu com os primórdios do sonoro. Mas ele a enriquece do interior ao introduzir os temas do envelhecimento, do fracasso e da necessária renovação, que ele trata com uma emoção bastante discreta, um humor dinâmico e quase amargo. Renovar-se não é exibir ambições extravagantes, misturar gêneros, minar sistematicamente as velhas tradições (Minnelli, diga-se de passagem, arranha o avant-gardismo da Broadway). É, pois, por um retorno às fontes que exige humildade e coragem, renovar, revitalizar do interior seu domínio e seu próprio talento. É também como afirma Mamoulian a propósito de Fred Astaire, “melhorar a perfeição”. Todos os números apresentados em The Band Wagon são passados na lenda do gênero: o solo de Astaire (“Shine on your Shoes”) no parque de diversões, o dueto “Dancing in the Dark” com Cyd Charisse no jardim atrás do qual se perfilam arranha-céus iluminados, ou mesmo “Triplets”, número burlesco onde Astaire, Buchanan e Nanette Fabray aparecem por meio de um truque hábil e simples como bebês (os atores dançam de joelhos, os joelhos deles dentro de botas de couro prolongadas por chinelos infantis). O ballet final de treze minutos, “Girl Hunt, a Murder Mystery in Jazz”, evocação satírica do universo dos films noir onde Cyd Charisse aparece loira, depois morena, é junto com a de Um Americano em Paris e Cantando na Chuva a peça mais célebre da bravura da comédia musical hollywoodiana. Quanto à canção “That’s Entertainment” (que deu seu título às antologias da MGM), ela foi escrita especialmente para o filme em meia-hora por Dietz e Schwartz. Ela contém toda a filosofia do gênero e merece ser destacada no conjunto dos musicais da Metro. 

Jacques Lourcelles, Dictionnaire du cinéma – Les films, pgs. 1456-1457.

domingo, 14 de outubro de 2012



"Tu te couvres tu t'éclaires
Tu t'endors et tu t'éveilles
Au long des saisons fidèles

Tu bâtis une maison
Et ton coeur la mûrit
...
Comme un lit comme un fruit

Et ton corps s'y réfugie
Et tes rêves s'y prolongent
C´ést la maison des fruits tendres.

Et des baisers dans la nuit"


"A humanidade séria do crescimento se civiliza, se abranda, mas tende a confundir o abrandamento com o preço da vida, e sua duração tranquila com seu dinamismo poético. Nessas condições, o conhecimento claro que ela geralmente tem das coisas não pode tornar-se um pleno conhecimento de si. É enganada pelo que toma como sendo a plena humanidade: a humanidade no trabalho, que vive para trabalhar sem usufruir livremente dos frutos do trabalho. Certo é que o homem relativamente desocupado - pelo menos pouco preocupado com suas obras - de que falam a etnografia e a história também não é um homem acabado. Contudo, ele nos ajuda a medir o que nos falta." 

Georges Bataille, A Parte Maldita

THE BAND WAGON



Un des classiques incontestés de la comédie musicale hollywoodienne, produite par le génial Arthur Freed, compositeur de chansons puis fondateur d’une equipe responsable de la pluplart des chefs-d’oeuvre du genre musical à la MGM. (Sur cette personnalité exceptionnelle, on recommandera chaudement l’ouvrage de Hugh Fordin “The World of Entertainment”,Doubleday, New York, 1975, traduit chez Ramsay en 1987 sous le titre aberrant “La comédie musicale américaine”.) A la demande de Freed, les scénaristes Comden et Green ont bâti leur histoire à partir de revues écrites par Howard Dietz et Arthur Schwartz durant les trente dernières années. (La revue qui donne son titre au film avait été interprétée en 1931 par Fred Astaire et sa soeur Adèle.) Astaire s’intéressant au projet, les scénaristes (qui se représentent eux-mêmes dans l’intrigue à travers les personnages joués par Oscar Levant et Nanette Fabray) créent un rôle pour le danseur en rapport avec son âge et certaines de ses manies (ex. son allergie vis-à-vis des partenaires de grande taille). Minnelli, ici, ne cherche nullement à revolutionner la structure ou le contenu de la comédie musicale. Au contraire, The Band Wagon représente l’apogée de la forme la plus traditionelle du genre, celle qui est basée sur la préparation d’un spectacle et naquit avec les débuts du parlant. Mais il l’enrichit de l’intérieur en y introduisant les thèmes du vieillissement, de l’échec et du nécessaire renouvellement, qu’il traite avec une emotion très discrète, un humour dynamique et presque cinglant. Se renouveler, ce n’est pas afficher des ambitions extravagantes, mélanger les genres, saper systématiquement les vieilles traditions (au passage Minnelli égratigne l’avant-gardisme de Broadway). C’est, par un retour aux sources qui exige humilité et courage, rénover, revitaliser de l’intérieur son domaine et son propre talent. C’est aussi, comme l’a dit Mamoulian à propos d’Astaire, “améliorer la perfection”. Tous les numéros dansés de The Band Wagon sont passés dans la légende du genre: le solo d’Astaire (“Shine on Your Shoes”) au parc d’attractions, le duo “Dancing in the Dark” avec Cyd Charisse dans le jardin derrière lequel se profilent les gratte-ciel éclairés, ou bien “Triplets”, numéro burlesque où Astaire, Buchanan et Nanette Fabray apparaissent par un habile et simple trucage en bébés (les acteurs dansent à genoux, leurs genoux enserrés dans des bottes de cuir prolongées par des chaussons d’enfants). Le ballet final de treize minutes, “Girl Hunt, a Murder Mystery in Jazz”, évocation satirique de l’univers de la série noire où Cyd Charisse apparaît en blonde, puis en brune, est avec celui d’Un américain à Paris et de Chantons sous la pluie le plus célèbre morceau de bravoure de la comédie musicale hollywoodiene. Quant à la chanson “That’s Entertainment” (qui donna son titre aux anthologies de la MGM), elle fut écrite spécialement pour le film en un demi-heure par Dietz et Schwartz. Elle contient toute la philosophie du genre et mérite d’être mise en enxergue à l’ensemble des musicals Metro.

Jacques Lourcelles, Dictionnaire du cinéma – Les films, pgs. 1456-1457.

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