domingo, 20 de maio de 2012



"Se a estupidez, com efeito vista por dentro, não se confundisse com o talento, se, vista por fora, não tivesse todas as aparências do progresso, do gênio, da esperança, ninguém desejaria ser estúpido e não existiria a estupidez. Pelo menos seria muito fácil combatê-la. O pior é que ela tem qualquer coisa de extraordinariamente natural e convincente. Por isso, quanto alguém considera um cromo mais artístico do que um quadro a óleo, este juízo comporta uma parte de verdade muito mais simples de demonstrar que o gênio de Van Gogh. Da mesma forma se torna muito mais fácil e rentável ser um dramaturgo muito mais poderoso do que Shakespeare, um romancista mais comum do que Goethe; um bom lugar-comum é sempre mais humano que uma nova descoberta. Não surge um único pensamento importante do qual a estupidez não saiba imediatamente aproveitar-se, ela pode mover-se em qualquer direção e assumir todos os trajes da verdade. A verdade, essa só tem um traje, um só caminho, por isso fica sempre de pior partido."

Robert Musil, O Homem sem Qualidades


"Um homem propõe-se desenhar o mundo. Ao longo dos anos, vai povoando o espaço com imagens, províncias, reinos, montanhas, baías, barcos, ilhas, peixes, casas, instrumentos, astros, cavalos e pessoas. Pouco antes da sua morte, descobre que este paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu próprio rosto."

Jorge Luís Borges, O Fazedor


"O caminho descia e bifurcava-se, por entre os prados já confusos. Uma música aguda e como que silábica aproximava-se e afastava-se no vaivém do vento, enfraquecida pelas folhas e pela distância. Pensei que um homem pode ser inimigo de outros homens, de outros momentos de outros homens, mas não de um país, não de pirilampos, palavras, jardins, cursos de água, poentes."

Jorge Luís Borges, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam
Berlim and the Artist by Robert Walser. 

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