quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012


"Sabe-se muito bem que há poucas paisagens, no mundo, mais fascinantes que as avenidas Hyde Park numa bela tarde de junho. E essa era exatamente a opinião de duas pessoas que, num lindo dia do começo daqueles mês, há quatro anos, achavam-se instalados à sombra das grandes àrvores, em duas cadeiras de ferro (das grandes, de braços, pelas quais, se não me engano se pegam dois pence.) Tinham atrás de si o lento desfile pelo caminho do parque, os rostos voltados para a agitação mais vívida da avenida. Estavam perdidas na multidão de observadores e perteciam, pelo menos aparentemente, à classe de pessoas que, onde quer que se encontrem, fazem parte mais dos espectadores do que do espetáculo. Eram figuras tranqüilas, simples, idodas e de aspecto algo neutro; o leitor muito as teria apreciado, embora dificilmente as houvesse observado. E no entanto, em toda aquela brilhante multidão, é a elas, gente obscura, que devemos dispensar atenção. Pedimos ao leitor que tenha confiança; não lhe solicitamos que faça desnecessárias concessões. Havia no rosto de nossos amigos a indicação de que estavam envelhecendo juntos e de que (se isso era uma condição) apreciavam a companhia um do outro o suficiente para não julgá-la desagradável. O leitor terá adivinhado que se tratava de marido e mulher; e, já que compreendeu isso, talvez tenha percebido que eram de nacionalidade que, no auge da estação, Hyde Park apresenta de mais representativo. Eram desconhecidos, mas eram sempre vistos, por assim dizer; e pessoas ao mesmo tempo tão bem instaladas e tão desligadas das demais só poderiam ser americanas. Essa reflexão, na verdade, só poderia fazer após certa demora, pois é preciso confessar que traziam, na superfície, poucos sinais patrióticos. Tinham idéias próprias de americanos; isso, porém, era muito sutil, e aos nossos olhos – se cuidássemos em olhar – poderiam ser descendentes de ingleses, ou mesmo de outros europeus. Era como se lhes conviesse passar despercebidos; sua conversação era expressiva. Não muito animada, antes um tanto sombria e monótona. Se estavam interessados nos cavaleiros, nos cavalos, nos transeuntes, na grande exibição da riqueza, saúde, luxo e lazer, isso era porque tudo aquilo se referia a outras impressões, pois tinham solução para tudo o que necessitasse resposta – porque, em suma, podiam fazer comparações. Não tinham chegado, mas apenas voltado; e o conhecimento que tinham de tudo aquilo, mais que a surpresa, estava expresso em sua contemplação serena.
(...)

Nossos amigos davam as costas, como dissemos, para a solente revolução de rodas e a massa muito congestionada do público que havia escolhido aquela parte do espetáculo. Os espectadores foram todos agitados por um impulso: o recuo de cadeiras, o arrastar de pés, o farfalhar de vestidos e o murmúrio abafado de vozes o exprimiam suficientemente. Sua Alteza aproximava-se; Sua Alteza estava passando; Sua Alteza havia passado. Freer virou a cabeça e escutou um pouco; mas não alterou demasiadamente sua posição. A esposa não prestou atenção àquele pequeno tumulto. Ambos haviam visto figuras da realeza em toda a Europa, e sabiam que passavam muito depressa. Às vezes voltavam; outras, não; em mais de uma ocasião, tinham-nas visto passar pela última vez. Eram turistas veteranos e sabiam, perfeitamente, quando deviam levantar-se e quando deviam permanecer sentados. O Sr. Freer continuou com sua idéia:

- Algum jovem certamente há de aparecer, e uma das moças certamente aceitará o risco. Aqui, elas têm cada vez mais de aceitar riscos..."

Henry James, Lady Barberina


"Dedicar-se, projetar-se e devotar-se, sentir e sentir até compreender, e compreender tão bem até que possa dizer, ter percepção no auge da paixão e ter expressão tão abrangente quanto o ar, ser infinitamente curioso e incorrigivelmente paciente, e no entanto maleável e inflamável e determinável, humilhando para conquistar e servindo para conduzir - essas são chances únicas para uma mente ativa, que acrescentam a idéia de beleza independente à concepção de sucesso."

Henry James, Crítica

Tantas vezes me havia imaginado encostado ao parapeito da ponte, a interrogar-me como fora possível passar tantos anos naquele buraco, naqueles caminhos, pastoreando a cabra e procurando maçãs caídas no fundo da ribeira, convencido de que o mundo terminava na curva onde a estrada descia até ao Belbo.

(...)
 
Deste modo, durante muito tempo julguei que esta terra onde nasci fosse tudo o que havia no mundo. Agora que vi realmente o mundo e sei que é formado por tantas pequenas aldeias, não sei se quando rapaz me enganava muito.

Cesare Pavese, A Lua e as Fogueiras

Rohmer: Rossellini is the one who turned me away from existentialism. It happened in the middle of Stromboli. During the first few minutes of the screening, I felt the limits of this Sartrian realis, to which I thought the film was going to be confined. I hated the away it invited me to look at the world, until I understood that it was also inviting me to look beyond that. Right then and there, I converted. That's what's so great about Stromboli. It was my road to Damascus: In the middle of the film, I converted, and I changed my perspective.

Narboni: You went through the same changes as Ingrid Bergman did in the film?

Rohmer: Yes, it's extraordinary! That's what I tried to show in my articles for the Gazette, to show that these values of grandeur, values that were completely rejected at that time, the resolution to create greatness using great means was able to exist through film, whereas the ideology at the time was to create something from nothing.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012


"Meu Deus, como pude sequer pensar isso? Como pude ficar tão cego, quando tudo já estava tomado por outro e nada era meu, quando, enfim, mesmo essa sua ternura, sua solitude, seu amor... sim, seu amor por mim não era nada mais que a alegria do próximo encontro com o outro, o desejo de impor-me também sua felicidade? Como ele não apareceu, e nós o aguardávamos em vão, ela franziu o cenho, ficou tímida e temerosa. Todos os seus movimentos, suas palavras, ficaram menos suaves, joviais e alegres. Mas, coisa estranha, ela redobrou sua atenção para comigo, como se instintivamente desejasse derramar sobre mim o que desejava para si mesma, por temer que aquilo não se realizasse. Minha Nastenka estava agora tão intimidada e apavorada, que tinha compreendido enfim que eu a amava, e sentiu pena do meu pobre amor. Pois quando estamos infelizes, sentimos mais agudamente a infelicidade alheia; o sentimento não se dispersa, mas concentra-se.

Eu tinha vindo a ela com o coração transbordante, e mal podia esperar a hora do encontro. Não imaginava o que iria sentir nesse instante, nem pressenti que tudo terminaria daquele modo. Ela estava radiante, aguardava uma resposta. A resposta era ele mesmo. Ele deveria vir, acudir ao seu chamado. Ela chegou uma hora antes de mim. No começo ria por qualquer motivo. Comecei a falar, mas de súbito calei-me.

- Sabe por que estou tão contente? - perguntou - e me alegra tanto vê-lo? Sabe por que eu o amo tanto hoje?

- Por quê? - perguntei, e meu coração estremeceu.

- Amo você tanto por não ter se apaixonado por mim! Outro, em seu lugar, teria começado por me perturbar e importunar, e teria suspirado e sofreria de amor. Mas você é tão amável!"

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cada qual com sua Quimera


Sob um grande céu cinzento, numa grande planície poeirenta, sem caminhos, sem gramados, sem uma urtiga, encontrei vários homens que andavam curvados.

Cada um deles carregava nas costas uma enorme Quimera, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão, ou os apetrechos de um soldado da infantaria romana.

Mas a monstruosa besta não era um peso inerte; pelo contrário, envolvia e oprimia o homem com seus músculos elásticos e possantes; grampeava-se com suas duas vastas garras no peito de sua montaria; e sua cabeça fabulosa sobressaía acima da fronte do homem, como um daqueles capacetes horríveis com os quais os antigos guerreiros esperavam acirrar o terror inimigo.

Interroguei um desses homens, e perguntei-lhe aonde iam assim. Respondeu-me que de nada sabia, nem ele, nem os outros, mas que evidentemente iam a algum lugar, já que eram levados por uma invencível necessidade de andar.

Coisa curiosa de se notar: nenhum dos viajantes parecia irritado com a besta feroz pendurada em seu pescoço e colada em suas costas; dir-se-ia que a considerava como fazendo parte de si mesmo. Todos esses rostos cansados e sérios não demonstravam desespero; sob o céu, com os pés mergulhados na poeira de um solo tão desolado quanto este céu, eles caminhavam com fisionomia resignada daqueles que estão condenados a ter sempre esperança.

E o cortejo passou a meu lado e afundou na atmosfera do horizonte, no lugar em que a superfície arredondada do planeta se esquiva à curiosidade do olhar humano.

E, durante alguns instantes, teimei em querer compreender esse mistério; mas em seguida a irresistível indiferença se abateu sobre mim, e me deixou mais duramente oprimido do que eles próprios por suas esmagadoras Quimeras.

Charles Baudelaire, Pequenos Poemas em Prosa

As recordações em amor não constituem uma exceção às leis gerais da memória, também ela regida pelas leis do hábito. Como esta enfraquece tudo, o que mais nos faz lembrar uma pessoa é justamente aquilo que havíamos esquecido por ser insignificante e a que assim devolvemos toda a sua força.

A melhor parte da nossa memória está deste modo fora de nós. Está num ar de chuva, num cheiro a quarto fechado ou no de um primeiro fogaréu, seja onde for que de nós mesmos encontremos aquilo que a nossa inteligência pusera de lado, a última reserva do passado, a melhor...

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido


«Um dia, ao regressar da casa de banho, dei com a porta do meu quarto fechada à chave e as minhas coisas empilhadas diante da porta. Vejam lá como eu tinha prisão de ventre nessa época. Era a ansiedade que me provocava prisão de ventre, acho eu. Mas será que eu tinha realmente prisão de ventre? Não creio. Calma, calma. E no entanto devia ter, porque como explicar de outra maneira essas longas, essas atrozes permanências nas retretes, nos W.C.? Onde eu não lia nunca, nem aí nem noutros lugares, não sonhava nem refletia, olhava vagamente para o almanaque suspenso de um prego diante dos meus olhos em que se via a imagem a cores de um jovem barbudo rodeado de carneiros, devia ser Jesus, separava as nádegas com as mãos e soltava, um! hã! dois! hã!, com movimentos de remador, e o meu único desejo era ir para o quarto e deitar-me. Era mesmo prisão de ventre, não era? Ou será que confundo com diarreia? Tudo se mistura na minha cabeça, cemitérios e casamentos e as diferentes espécies de fezes.»
 
Samuel Beckett, O Primeiro Amor

O tempo livre que tenho em mente não é o lazer tal como normalmente entendido. O lazer aparente ainda permanece conosco, e, de fato, está protegido e propagado por medidas legais e pelo progresso mecânico. As jornadas de trabalho são medidas, e a sua duração em horas, regulada por lei. O que eu digo, porém, é que o nosso ócio interno, algo muito distinto do lazer cronometrado, está desaparecendo. Estamos perdendo aquela paz essencial nas profundezas do nosso ser, aquela ausência sem preço na qual os elementos mais delicados da vida se renovam e se confortam, ao passo que o ser interior é de algum modo liberado de passado e futuro, de um estado de alerta presente, de obrigações pendentes e expectativas à espreita. Nenhuma preocupação, nenhum amanhã, nenhuma pressão interna, mas uma forma de repouso na ausência, uma vacuidade benéfica que traz a mente de volta à sua verdadeira liberdade, ocupada apenas consigo mesma. Livre de suas obrigações para com o saber prático e desonerada de qualquer preocupação sobre o porvir, ela cria formas tão puras como o cristal. Mas as demandas, a tensão, a pressa da existência moderna perturbam e destroem esse precioso repouso. Olhe para dentro e ao redor de si! O progresso da insônia é notável e anda pari passu com todas as outras modalidades de progresso.

Paul Valéry 

domingo, 26 de fevereiro de 2012



"O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas; é que, da nossa própria prisão, conseguimos extrair, de dentro de nós mesmos, imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância."
 
André Malraux, A Condição Humana


EURÍDICE

Lançaste-me então para trás,
eu que poderia ter caminhado com as almas vivas sobre a terra,
eu que poderia ter dormido entre flores vivas
por fim;

então pela tua arrogância
pela tua truculência
fui lançada para trás
para onde o líquen morto escorre
escórias mortas sobre musgo de cinza;

então pela tua arrogância estou
por fim despedaçada,
eu que vivi inconsciente,
que fui quase esquecida;

se me tivesses deixado esperar
teria crescido da indiferença
para a paz,
se me tivesses deixado repousar com os mortos, ter-me-ia esquecido de ti
e do passado.

 Ezra Pound

"You know the beautiful line by Oscar Wilde about the painter Turner, who painted so many foggy landscapes of London? Wilde said that before Turner there was no fog in London. And, you know, it's true. Because you take any piece of English literature before Turner, and nobody talks about the fog. You have no fog in Shakespeare, no fog in Ben Jonson. They never talk about it. But the day Turner decided to paint London the way he saw it – filled with a heavy fog – well, London had fog from that day forward, that's all. After Turner, in every English novel there is fog. And we are thankful to Turner for having discovered something that was obvious, but that none of us could see: that there is fog in London. Don't you think that's wonderful?"

sábado, 25 de fevereiro de 2012

“Já se disse que o silêncio era uma força; num sentido completamente diferente, ele é uma força, e terrível, à disposição daqueles que são amados. Uma força que aumenta a ansiedade de quem espera. Nada convida tanto alguém a aproximar-se de um ser como o que dele o separa, e que barreira existe mais intransponível que o silêncio? Já se disse também que o silêncio era um suplício, e capaz de enlouquecer aquele que nas prisões a ele estava obrigado. Mas que suplício - maior que o de guardar silêncio - é o de sofrer o silêncio de quem se ama! Robert dizia de si para si: «Que estará ela a fazer para estar assim calada? Estará por certo a enganar-me com outros...» Dizia ainda: «Que fiz para ela estar assim calada? Provavelmente odeia-me, e para sempre.» E acusava-se a si mesmo. Assim, com efeito, o silêncio o punha louco de ciúme e de remorso. De resto, mais cruel que o das prisões, tal silêncio é ele mesmo uma prisão. Uma clausura imaterial, sem dúvida, mas impenetrável, aquela fatia interposta de atmosfera vazia, mas que os raios visuais do abandonado não podem atravessar. Haverá luz mais terrível que o silêncio, que não nos mostra uma ausente, mas mil, e cada uma delas entregando-se a alguma outra traição? Algumas vezes, numa brusca distensão, Robert acreditava que esse silêncio iria cessar daí a pouco, que a esperada carta iria chegar. Via-a a chegar, espiava cada ruído, a sua sede estava já saciada, murmurava: «A carta! A carta!» Depois de ter assim entrevisto um oásis imaginário de ternura tornava a dar consigo patinhando no deserto real do silêncio sem fim.

Sofria adiantadamente todas as dores, sem esquecer nenhuma, de um rompimento que em outras ocasiões julgava poder evitar, como aquelas pessoas que liquidam todos os seus assuntos na mira de uma expatriação que não irá efetuar-se, e cujo pensamento, que já não sabe onde deverá situar-se no dia seguinte se agita momentaneamente, despegado delas, semelhante a um coração que se arranca a um doente e que continua a bater, separado do resto do corpo. Em todo o caso, esta esperança de que a amante regressaria dava-lhe coragem para perseverar no rompimento, tal como a crença de poder regressar vivo do combate ajuda a enfrentar a morte. E como o hábito é, de todas as plantas humanas, aquela que menos necessidade tem para viver de um solo rico de alimento, e a primeira a aparecer no aparentemente mais desolado dos rochedos, talvez começando por praticar o rompimento a fingir acabasse por se lhe acostumar sinceramente. Mas a incerteza alimentava nele um estado que, ligado à recordação daquela mulher, se assemelhava ao amor. Forçava-se contudo a não lhe escrever (pensando acaso que o tormento era menos cruel de viver sem a amante que com ela em certas condições, ou que, depois da maneira como se haviam separado, esperar as suas desculpas era necessário para que ela conservasse o que acreditava que ela sentia por ele, senão de amor, pelo menos de estima e respeito). “

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido



Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

EM VIRTUDE DO AMOR

Libertei o quarto onde durmo, onde sonho
Libertei o campo e a cidade onde passo,
Onde sonho acordado, onde o sol se levanta,
Onde, nos meus olhos ausentes, a luz se acumula.

Mundo de pequena felicidade, sem superfície e sem fundo,
De encantos esquecidos logo que descobertos,
O nascimento e a morte misturam o seu contágio
Nas dobras da terra e do céu misturadas.

Não separei nada mas reforcei o coração.
De amar, tudo criei: real, imaginário,
Dei a sua razão a sua forma o seu calor
E o seu papel imortal àquela que me ilumina.

Paul Éluard

A Vocação de S. Mateus é mais uma interpelação que uma designação imperativa. Cristo encontra nele um dos seus apóstolos; mas o interpelado, perplexo, não sabe bem se o apelo lhe é dirigido. À mesa em que se senta com outros publicanos, Levi, que será Mateus, ainda não sabe quem será, e os outros nem sequer parecem saber quem é Jesus. Caravaggio não quis mostrar a cena de um reconhecimento, mas o primeiro momento de um encontro; e isso, lido na filigrana da muito apertada ortodoxia do tempo, seria heresia, porque recusa a representação da predestinação e da graça divinas, categorias cuja pertinência iria ocupar boa parte das polêmicas teológicas de meados do século XVII.

Como todos os figurantes se vestem com roupas contemporâneas, a cena perde vigor histórico para ganhar um inesperado dinamismo plástico. Em boa verdade, a única coisa que interessa a Caravaggio é que a sua pintura funcione e que o jogo dos corpos e das expressões se equilibre na complexa arquitetura das sete personagens que figuram na enorme tela. Porque, na até então curta obra de Caravaggio, essa era uma dupla 'première': por um lado, as duas telas eram de longe os maiores formatos a que se abalançara; por outro, porque o máximo que arriscara pintar, até então, eram três personagens, precisamente no célebre quadro [Os batoteiros] que abrira os olhos do cardeal Del Monte para o seu talento.

Alguns julgam ver na figura em primeiro plano (possivelmente, o apóstolo Pedro), uma forma hábil de Caravaggio fugir à representação de Jesus com vestes contemporâneas, o que lhe podia valer problemas com as autoridades eclesiásticas. É possível. Mas Pedro, que quase oculta Cristo, é uma adição tardia, sabe-se hoje. Basta olhar para o quadro como fato de pintura: a figura de Pedro cumpre a função de «compensar» a presença avassaladora de Cristo, irrompendo do lado direito da cena, precisamente de onde vem a luz. Sem essa figura circunstancial, que intercepta o braço de Jesus, deixando apenas ver o gesto adâmico pelo qual designa Mateus, a tela seria a representação de um episódio da vida de Cristo e não o momento em que Mateus é designado pelo destino. Ou seja, sem Pedro, não haveria interpelação, surpresa e dúvida, apenas imperativo e reconhecimento.

António Mega Ferreira, Roma - Exercícios de reconhecimento

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


ARGUMENTO

Como viver sem desconhecido diante de nós?

os homens de hoje em dia querem que o poema seja à imagem das suas vidas, com tão poucas considerações, tão pouco espaço, consumidas de intolerância.

Porque já não lhes é permitido agir supremamente, nessa preocupação fatal com a auto-destruição através dos seus semelhantes, porque a sua riqueza inerte os refreia e os amarra, os homens de hoje em dia, debilitado o instinto, perde, muito embora se conservem vivos, a própria poeira do seu nome nascido do chamamento do porvir e da angústia da retenção, o poema, elevando-se do seu poço de lama e de estrelas, testemunhará, quase silenciosamente, que nada havia nele que não existisse verdadeiramente noutro sítio, neste rebelde e solitário mundo de contradições.

René Char, Furor e mistério


SÁBADO

O novo ser come demasiada fruta. O mais provável é que nos vá fazer falta. NÓS de novo! Essa palavra era do ser... É também minha, agora, de a ouvir tantas vezes. Muito nevoeiro esta manhã. Eu não saio para o nevoeiro. O novo ser sai. Sai com todo o tipo de tempo e regressa com os pés enlameados. E fala. Costumava ser tão prazenteiro e sossegado por aqui...

DOMINGO
 
Agüentei-me. Este dia está cada vez mais desgastante. Tinha sido selecionado e posto de parte em Novembro passado como dia de descanso. Esta manhã avistei o novo ser buscando deitar ao chão maçãs daquela nova árvore proibida.

SEGUNDA-FEIRA

O novo ser diz que se chama Eva. Tudo bem. Não tenho objeções. Diz que é para o chamar quando queira que ele venha. Eu disse que, nesse caso, era supérfluo. Esta palavra fez-me subir na sua consideração e é, de fato, uma longa e boa palavra capaz de suportar a repetição. O novo ser diz que não é um ser, mas uma Ela. Dúvido, mas tanto me faz. O que Ela seja não me faria diferença se Ela se metesse na sua vida e não falasse.

Mark Twain, Diários de Adão e Eva

A vida é curta e é pecado perder o seu tempo. Sou ativo, diz-se. Mas ser ativo é ainda perder o seu tempo, na medida em que nos perdemos. Hoje é um descanso e o meu coração parte ao encontro de si próprio. Se uma angústia ainda me estréia, é a de sentir este impalpável instante escorregar-me por entre os dedos como as gotas do mercúrio. Deixai, pois, aqueles que querem voltar as costas ao mundo. (...) Posso dizer, e direi daqui a pouco, que o que conta é ser humano e simples. Não, o que conta é ser verdadeiro e então, tudo aí se inclui, a humanidade e a simplicidade. E quando posso eu ser mais verdadeiro do que quando sou eu o mundo? Sou satisfeito antes de ter desejado. A eternidade está ali e eu esperava-a. Já não é ser feliz o que eu desejo agora, mas apenas ser consciente.

Um homem contempla e o outro cava o seu túmulo: como distingui-los? Os homens e o seu absurdo? Mas aqui está o sorriso do céu. A luz aumenta e breve será o Verão? Mas aqui estão os olhos e as vozes daqueles que é preciso amar. Estou preso ao mundo por todos os meus gestos, aos homens por toda a minha piedade e o meu reconhecimento. Entre este direito e este avesso do mundo, eu não quero escolher, não gosto que se escolha. As pessoas não querem que se seja lúcido e irônico. Eles dizem: «Isso mostra que não és bom.» Não vejo a relação. Decerto ouço dizer a uma delas que é imoralista, traduzo que ela tem necessidade de atribuir-se uma moral; a outra que despreza a inteligência, compreendo que ela não pode suportar as suas dúvidas. Mas porque eu não gosto que se faça batota. A grande coragem é ainda a de ter os olhos abertos para a luz como para a morte. Além disso, como explicar a ligação que leva deste amor devorador à vida a este desespero oculto? Se escuto a ironia escondida no fundo das coisas, ela descobre-se lentamente. Piscando o olho pequeno e claro: «Vive como se...», diz ela. Apesar de muitas pesquisas, aqui está toda a minha ciência.

Albert Camus, O avesso e o direito

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012



“There is a time in the life of every boy when he for the first time takes the backward view of life. Perhaps that is the moment when he crosses the line into manhood. The boy is walking through the street of his town. He is thinking of the future and of the figure he will cut in the world. Ambitions and regrets awake within him. Suddenly something happens; he stops under a tree and waits as for a voice calling his name. Ghosts of old things creep into his consciousness; the voices outside of himself whisper a message concerning the limitations of life. From being quite sure of himself and his future he becomes not at all sure. If he be an imaginative boy a door is torn open and for the first time he looks out upon the world, seeing, as though they marched in procession before him, the countless figures of men who before his time have come out of nothingness into the world, lived their lives and again disappeared into nothingness. The sadness of sophistication has come to the boy. With a little gasp he sees himself as merely a leaf blown by the wind through the streets of his village. He knows that in spite of all the stout talk of his fellows he must live and die in uncertainty, a thing blown by the winds, a thing destined like corn to wilt in the sun.”

Sherwood Anderson, Winesburg, Ohio
[...]

ILS ÉTEIGNENT LES ÉTOILES À COUPS DE CANON

 Les étoiles mouraient dans ce beau ciel d'automne
Comme la mémoire s'éteint dans le cerveau
De ces pauvres vieillards qui tentent de se souvenir
Nous étions là mourant de la mort des étoiles
 Et sur le front ténébreux aux livides lueurs
Nous ne savions plus que dire avec désespoir 
 
ILS ONT MÊME ASSASSINÉ LES CONSTELLATIONS


Mais une grande voix venue d'un mégaphone
Dont le pavillon sortait
De je ne sais quel unanime poste de commandement
La voix du capitaine inconnu qui nous sauve toujours cria

IL EST GRAND TEMPS DE RALLUMER LES ÉTOILES

 [...]

Guillaume Apollinaire



THE CONVERT

 After one moment when I bowed my head
And the whole world turned over and came upright,
And I came out where the old road shone white,
I walked the ways and heard what all men said,
Forests of tongues, like autumn leaves unshed,
Being not unlovable but strange and light;
Old riddles and new creeds, not in despite
But softly, as men smile about the dead.

The sages have a hundred maps to give
That trace their crawling cosmos like a tree,
They rattle reason out through many a sieve
That stores the sand and lets the gold go free:
And all these things are less than dust to me
Because my name is Lazarus and I live.

G. K. Chesterton

"Imagine alguém que, como o Persa de Montesquieu ou o [índio] Huron de Voltaire, faça perguntas sobre um planeta desconhecido. Ele dirá 'O que são homens?', e responderemos: 'São seres que, sem mulher, não pode viver e morrem'. Ele dirá então: 'O que são mulheres?', e responderemos: 'Elas são feitas de braços, de pernas, de olhos, de saias, de suéteres e também de casamentos, de mentiras, de encontros, de ternura, de amizade'.”

Jean Luc Godard, Le Monde

¡Abierto queda el cielo! Los misterios han muerto,
Ante el hombre, de pie, con los brazos cruzados,

¡En el gran esplendor de la rica natura!
Canta; ...y el bosque canta, y hasta el río murmura,
¡Una canción feliz que asciende a pleno día!...
-¡El Amor que Redime, amor y redención!

Arthur Rimbaud,  Sol y carne (III)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012


«A tolice não é o meu forte. Vi muitos indivíduos; visitei várias nações; tomei parte em cometimentos vários de que não gostei; quase todos os dias comi; e de mulheres também tenho que contar. Revejo agora umas centenas de caras, dois ou três espectáculos, e talvez a substância de vinte livros. Não retive o melhor nem o pior destas coisas: ficou como pôde.
 
Esta aritmética poupa-me o espanto de envelhecer. Poderia igualmente contar os vitoriosos momentos do meu espírito, imaginá-los juntos e e isolados, a formarem uma vida feliz… No entanto estou em crer que me julguei sempre bem julgado. Raramente me perdi de vista; detestei-me, adorei-me; — depois envelhecemos juntos.»
Laura Cohen - Self-portraits in front of a tarnished mirror


"Uma noite estava ele sentado à mesa dele com a cabeça entre as mãos quando se viu a si mesmo a levantar-se e a ir-se. Uma noite ou um dia. Pois quando se apagou a luz dele não ficou na escuridão. Na altura vinha uma espécie de luz da única janela alta. Debaixo dela ainda o banco por onde ele subia para ver o céu até mais não poder ou não querer. Se não se esticava para ver o que havia lá por baixo era talvez porque a janela não era feita para abrir ou porque ele não a podia ou não queria abrir. Talvez ele soubesse até bem de mais o que havia lá por baixo e nunca mais o quisesse ver. E assim mais não fazia que pôr-se ali de pé bem alto acima da terra a olhar através do vidro nublado para o céu sem nuvens. A luz fraca e fixa do céu como nenhuma outra luz de que ele se lembrasse dos dias e das noites em que dia dava em noite e noite dava em dia. Então esta luz exterior quando a luz que ele tinha se apagou tornou-se na única luz que tinha até que por sua vez se apagou e deixou-o na escuridão. Até que por sua vez se apagou."
 
Samuel Beckett, Últimos Trabalhos


«A arte pública dos Gregos que atingiu o apogeu na tragédia era expressão do que havia de mais profundo e mais nobre na consciência popular. O que há de mais profundo e mais nobre na consciência laica contemporânea é a pura contradição, a negatividade que atravessa a nossa arte. (...). Nos vastos espaços do anfiteatro grego era a totalidade do povo que participava nas representações. Pelo contrário, nos nossos mais distintos teatros preguiçam apenas os ricos. Os Gregos iam buscar os materiais da sua arte aos produtos mais elevados da cultura comunitária. Nós vamos buscá-los à barbárie social mais acabada. A educação do homem Grego fazia dele, no plano do corpo como no do espírito, desde a infância, um verdadeiro objeto da atividade artística e do prazer estético. O embotamento típico da educação contemporânea, na maior parte dos casos meramente orientada na perspectiva do lucro industrial, dá-nos satisfação idiota e simultaneamente orgulhosa da nossa inaptidão artística e ensina-nos a procurar objectos da experiência estética fora de nós, aproximadamente com o mesmo tipo de desejo com que o depravado procura junto de uma prostituta um fugaz prazer amoroso. O Grego era ensinado a representar, a cantar e a dançar, e portanto a sua representação no espectáculo trágico proporcionava-lhe um profundo prazer interior à obra de arte; estar à altura desse prazer, pela beleza e pela formação pessoais, era justamente uma honra. Nos tempos que correm manda-se amestrar um porção do proletariado existente em todas as classes para distração do público e as fileiras do pessoal que se apresenta nos teatros tornaram-se um viveiro de vaidades mesquinhas onde vigora o desejo de agradar a qualquer preço e, em certas circunstâncias, a perspectiva de lucro rápido e abundante. Se o artista Grego era recompensado antes de mais pelo seu próprio prazer na obra de arte e depois pelo sucesso e pela aprovação pública, o artista moderno está amarrado a um contrato e a um salário. Estamos então em condições de caracterizar com rigor a diferença essencial: a arte pública dos Gregos era de fato arte, ao passo que a nossa é salariato artístico.

(…)

Não podemos, pois, admirar-nos ao verificar que também a arte anda em busca de dinheiro, porque tudo luta pela liberdade, tudo tende para o deus que lhe é próprio, e o deus do nosso tempo é o dinheiro, tal como a nossa religião é o lucro.»

Richard Wagner, Art and Revolution
THE CONVERT

After one moment when I bowed my head
And the whole world turned over and came upright,
And I came out where the old road shone white,
I walked the ways and heard what all men said,
Forests of tongues, like autumn leaves unshed,
Being not unlovable but strange and light;
Old riddles and new creeds, not in despite
But softly, as men smile about the dead.

The sages have a hundred maps to give
That trace their crawling cosmos like a tree,
They rattle reason out through many a sieve
That stores the sand and lets the gold go free:
And all these things are less than dust to me
Because my name is Lazarus and I live.

G. K. Chesterton

Gustave Le Gray: Seascapes



Nenhum poeta canta porque tem que cantar. Pelo menos, nenhum grande poeta o faz. Um grande poeta canta porque resolve cantar. É assim agora e sempre foi. Às vezes somos levados a pensar que as vozes que se ouviam na alvorada da poesia eram mais simples, mais arejadas, mais naturais que as nossas e que o mundo que os poetas primevos contemplavam e pelo qual passeavam era dotado de uma espécie de virtude poética própria que podia quase sem alteração passar à canção. Hoje a neve está acumulada no Olimpo e suas encostas íngremes e escarpadas estão ermas e estéreis, mas imaginamos que outrora os alvos pés das musas roçavam o orvalho das anêmonas pela manhã e, à noite, chegava Apolo para cantar aos pastores do vale. Mas com isso estamos apenas atribuindo a outras eras o que desejamos, ou cremos desejar, para a nossa. Nosso senso histórico é deficiente. Todo século que produz poesia é, na medida em que o faz, um século artificial, e a obra que nos parece o produto mais natural e simples da sua época é sempre o resultado do esforço mais autoconsciente. Creia-me, Ernest, não há belas-artes sem autoconsciência, e a autoconsciência e o espírito crítico são uma coisa só...

Oscar Wilde - The Critic as Artist

"A discórdia é sermos obrigados a estar em harmonia com os outros. A nossa própria vida é o que há de mais importante. Agora, se quisermos ser pedantes ou puritanos, podemos tecer as nossas considerações morais sobre a vida dos outros, mas estas não nos dizem respeito. Para além disso, o individualismo é realmente o mais elevado dos ideais. A moralidade moderna consiste na aceitação dos modelos da nossa época. Julgo que aceitar o modelo da nossa época será, para qualquer homem culto, a maior de todas as imorallidades."


Calou-se, refletiu alguns segundos, e depois perguntou:
 
- Tens o curso do liceu?

- Não. Fiquei reprovado duas vezes.

- Isso não tem importância, desde o momento que frequentaste as aulas até ao fim. Se te falarem de Cícero ou de Tibério, sabes, pouco mais ou menos, de quem se trata?

- Sim, pouco mais ou menos.

-Bem, ninguém sabe mais do que isso, com excepção de uma vintena de imbecis que não têm jeito para mais nada. Não é muito difícil passar por esperto, acredita; o principal é não se deixar apanhar em flagrante delito de ignorância. Manobramos, esquivamo-nos à dificuldade, contornamos o obstáculo e batemos os outros por meio de um dicionário. Todos os homens são estúpidos como galinhas e ignorantes como carpas.

Guy de Maupassant - Bel-Ami
Un triunfo de la civilización.

domingo, 19 de fevereiro de 2012


I don't know if I'm unhappy because I'm not free, or if I'm not free because I'm unhappy.


"Al iniciar el filme, vertiginosa zambullida en la subjetividad del viejo Isaac, somos testigos de una soberbia escena onírica que será motor de todo el relato. Más allá del contenido de las imágenes – donde un sol malsano derrama una luz insoportable, acusadora y de un contraste poderoso que anula los grises a favor de un auténtico blanco y negro enfermizo en una ciudad sin tiempo –, el ritmo del montaje y el vacío sonoro sugieren otro universo, con otras leyes y otros códigos. La secuencia de planos se aúna con la mirada del espíritu del personaje que observa todo con esa mezcla de completa extrañeza e incomoda familiaridad que caracteriza el sueño tornándose en pesadilla. Un aviso del inconsciente, a través de arquetipos del horror al paso del tiempo, pone en advertencia al héroe bergmaniano, de la soledad profunda, de que la muerte se acerca y de que es tiempo de un examen de consciencia."

Prisão de Neulengbach, 16 de abril de 1912


Enfim! Enfim! Enfim! Enfim, um alívio para o meu sofrimento! Enfim papel, lápis, pincéis e tintas, para desenhar e escrever. Uma verdadeira tortura, estas horas selvagens, vagas, cruéis, estas imutáveis, informes horas cinzentas e monótonas que tive de viver, privado de tudo como um animal, entre quatro paredes nuas e frias.

Um ser interiormente fraco, teria certamente começado a afundar-se e também eu teria enlouquecido, se esta estagnação se tivesse prolongado por mais tempo, dia após dia.

Assim, e não obstante sentir-me terrivelmente deprimido, arrancado ao campo da minha atividade, comecei, para não me afundar completamente, a pintar com os dedos trêmulos, molhados na minha saliva amarga. Utilizando as manchas do reboco, tracei cabeças e paisagens nas paredes da cela. Depois observei como os desenhos se desvaneciam pouco a pouco empalidecendo até desaparecer, na profundeza da parede, como se tivessem sido apagados por uma mão invisível, dotada de um poder mágico.

Presentemente, Deus seja louvado, tenho de novo com que pintar e escrever. Finalmente restituiram-me o meu perigoso canivete. Posso manter-me ocupado e assim suportar o que doutra forma seria insuportável. Sinto-me humilhado, rebaixado, pedi, supliquei, mendiguei para conseguir estes objectos e chagaria mesmo a choramingar se necessário. Oh! Minha arte! Que não farei eu por ti!

Egon Schiele, Im Gefangnis / Na prisão

El apogeo

Psiqué, hermana mía, escucha inmóvil, y tiembla.
La dicha llega, nos toca y nos habla de rodillas.
Estrechémonos las manos. Sé grave. Escucha aún... Nadie
es más feliz esta noche, más divino que nosotros.

Una ternura inmensa atrae entre las sombras
nuestros ojos semi-cerrados. ¿Qué queda todavía
del beso que se calma, del suspiro que se pierde?
La vida ha dado la vuelta a nuestro áureo reloj de arena.

Esta es nuestra hora eterna; eternamente grande.
La hora que sobrevivirá al efímero amor
como un velo impregnado de rosa y lavanda
conserva, cien años después, la juventud de un día.

Más tarde, hermosa mía, cuando noches ajenas
hayan pasado sobre ti, que ya no me esperarás,
cuando otros, acaso, amiga de las suaves manos,
celosos de mi nombre, rozarán tus pies desnudos.

Acuérdate de que un día vivimos los dos juntos
la única hora en que los dioses conceden, un instante,
a la cabeza inclinada, a la espalda temblorosa,
el puro espíritu vital que huye con el tiempo.

Acuérdate de que una noche, en nuestro lecho,
acariciándonos con deseos ansiosos de unirse,
cambiamos de boca a boca
la perla imperecedera en la que duerme el recuerdo.

 Pierre Louÿs

The Ground is Hard, the Sky is Far

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