sábado, 30 de abril de 2011

Désolé... ma brave femme... je ne puis rien vous faire... je suis de la société des Philantropes du Nord... je ne donne qu'aux pauvres du Kamchatka!...

(Les philantropes du jour)
TRABALHAR CANSA

CESARE PAVESE

Atravessar uma rua fugindo de casa

só um menino o faria, mas este homem que passa

todo o dia nas ruas não é mais menino

e não foge de casa.

Em pleno verão,

até as praças se tornam vazias de tarde, deitadas

sob o sol que começa a cair, e este homem que chega

por um parque de plantas inúteis detém-se.

Vale a pena ser só para estar cada vez mais sozinho?

Simplesmente vagar, pois as praças e ruas

estão ermas. Forçoso é abordar uma mulher

e falar-lhe e fazê-la viver com você.

Do contrário, se fala sozinho. É por isso que às vezes

algum bêbado à noite dispara discursos

e repassa os projetos de toda sua vida.

Certamente não é esperando na praça deserta

que se encontram pessoas, mas quem anda nas ruas

se detém vez ou outra. Estivessem a dois,

mesmo andando na rua, sua casa estaria

onde está a mulher. Valeria a pena.

Mas de noite essa praça retorna ao vazio

e este homem que passa não vê as fachadas

entre luzes inúteis nem ergue seus olhos:

sente só o ladrilho que outros homens fizeram

com mãos secas e duras, assim como as suas.

Não é justo deixar-se na praça deserta.

Com certeza há de andar pela rua a mulher

que, chamada, viria ajudar com a casa.
Virá a morte e terá os teus olhos

esta morte que nos acompanha

da manhã à noite, insone,

surda, como um velho remorso

ou um vício absurdo. Os teus olhos

serão uma palavra vã,

um grito emudecido, um silêncio.

domingo, 24 de abril de 2011

"Intrigante! Astucioso! Traiçoeiro! Vil! Eis como manténs as tuas promessas! Eis como respeitas os pactos. Durmo, tenho uma quantidade de sonhos indiferentes que agora não recordo, e, no fim, sonho estar num estúdio cinematográfico, enormíssimo, imerso na penumbra. Num ângulo, sobre o carrinho está a máquina de filmar coberta por um pano preto. Sei seguramente que está girando, finalmente!, o "meu" filme. Qual filme? Quem é o produtor? Quem são os actores? Não o sei. Sei somente que é o "meu" filme. O filme no qual penso há quinze anos. O filme do qual depende toda a minha vida. Eis que salto para o carrinho, sento-me no banco e, curvando-me para a frente, com um gesto desenvolto e profissional, ponho o olho na objectiva.(...)"

Eu e ele, Alberto Moravia.


sexta-feira, 22 de abril de 2011


"Certamente  a mulher mais linda da cidade, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fo­goso com os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Sempre muito animada ou então deprimida, com ela não há esse negócio de meio-termo".

quinta-feira, 21 de abril de 2011


(...) Aos olhos do mundo branco, Rutledge só pode ser culpado. Aos olhos de Ford, como aos de Cantrell, só pode ser inocente, apenas com a diferença, e não é de somenos, de que, para Ford, ele só é inocente por ser considerado culpado. Sabe, portanto, que, em certa medida, a este processo-simulacro só poderá opor um processo-engodo, trompe-l'oeil contra trompe-l'oeil.

Ford reduz deliberadamente o espaço tradicional evacuando a sala, recorre descaradamente a todo o arsenal maneirista, contrata pela segunda vez a artista menos fordiana (Constance Towers), brinca com os testemunhos, não liga minimamente ao verdadeiro culpado (que podia chamar-se MacGuffin) a não ser para fazer dele uma imitação de Hans Beckert-Peter Lorre, ridiculariza o processo (Cantrell é, simultaneamente, o advogado de defesa e um dos actores e testemunhas do drama), pulveriza as analogias dramatúrgicas que fizeram as glórias dos processos hollywoodescos e transforma o tribunal numa cena de ópera militar. (...)

Pierre Léon, "cinematografia – teatralidade 2".

domingo, 17 de abril de 2011


A última vez em que eu vi aquele homem assustador, ele apareceu na minha casa em Hollywood trazendo de presente para mim um pote de mel. Eu não era especialmente amigo de Rachmaninov naquele tempo; ninguém era, eu acho: relações sociais com um homem do temperamento de Rachmaninov exigem mais perseverança do que sou capaz: ele só estava me trazendo mel.

...Algumas pessoas adquirem um tipo de imortalidade simplesmente graças à completude com que possuem ou deixam de possuir alguma qualidade ou característica. A totalidade imortalizadora de Rachmaninov era seu mau humor. Ele era um mau humor de um metro e noventa de altura.

Suponho que minhas conversas com ele, ou melhor, com a mulher dele, pois ele ficava sempre em silêncio, eram típicas:

Sra. Rachmaninov: Qual é a primeira coisa que o senhor faz quando acorda de manhã? [Isso poderia ter sido indiscreto, mas não se você visse a maneira com que ela perguntava].

Eu: Durante quinze minutos eu faço exercícios que um ginasta húngaro me ensinou, ou melhor, eu fazia até saber que o húngaro morreu muito moço, e muito de repente, e depois eu tomo uma ducha.

Sra. Rachmaninov: Está vendo, Serge, Stravinsky toma ducha. Que extraordinário. Você continua dizendo que tem medo de tomar ducha? E você ouviu ele dizer que faz exercício? O que é que você acha disso? Que vergonha, você nem faz uma caminhada.

Rachmaninov: (Silêncio)



...Quando eu penso nele, acho que o seu silêncio surge como um contraste nobre em comparação com os auto-elogios que são o único assunto dos intérpretes e da maioria dos outros músicos. E ele era o único pianista que eu vi que não fazia caretas. É uma grande coisa.


Stravinsky, “Conversas”, 1959.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011



O verme se enconcha quando é chutado. Essa é a sua astúcia. Ele diminui com isso a probabilidade de ser novamente chutado. Na língua da moral: humildade.
(...)

Uma forma cómoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua própria expressão, em fazer negócios. Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dos escritórios, reúnem-se a uma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas. Os desejos dos mais velhos não vão além das associações de boulomanes [1], os banquetes das amicales [2] e os ambientes em que se aposta alto no jogo de cartas.

Dirão sem dúvida que nada disso é característico de nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viver. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhes modifica a vida. Simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Isso tampouco é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.

(...)

_______

[1] Neologismo que designa os entusiastas de jogo muito popular na frança. (N. do T.)

[2] Nome das associações formadas por membros do ensino, etc. (N. do T.)

Excerto de A Peste, Albert Camus.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O ecrã como abismo
O defeito fundamental de todo materialismo anterior - inclusive o de Feuerbach - está em que só concebe o objeto, a realidade, o ato sensorial, sob a forma do objeto ou da percepção, mas não como atividade sensorial humana, como prática, não de modo subjetivo. Daí decorre que o lado ativo fosse desenvolvido pelo idealismo, em oposição ao materialismo, mas apenas de modo abstrato, já que o idealismo, naturalmente, não conhece a atividade real, sensorial, como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis, realmente diferentes dos objetos de pensamento; mas tampouco concebe a atividade humana como uma atividade objetiva. Por isso, em A Essência do Cristianismo, só considera como autenticamente humana a atividade teórica, enquanto a prática somente é concebida e fixada em sua manifestação judia grosseira. Portanto, não compreende a importância da atuação "revolucionária", prático-crítica.



II



O problema de se ao pensamento humano corresponde uma verdade objetiva não é um problema da teoria, e sim um pro blema prático. É na prática que o homem tem que demonstrar a verdade, isto é, a realidade, e a força, o caráter terreno de seu pensamento. O debate sobre a realidade ou a irrealidade de um pensamento isolado da prática é um problema puramente escolástico.




III



A teoria materialista de que os homens são produto das circunstâncias e da educação e de que, portanto, homens modificados são produto de circunstâncias diferentes e de educação modificada esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado. Leva, pois, forçosamente, à divisão da sociedade em duas partes, uma das quais se sobrepõe à sociedade (como, por exemplo, em Robert Owen). A coincidência da modificação das circunstâncias e da atividade humana só pode ser apreendida e racionalmente compreendida como prática transformadora.



IV


Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, do desdobramento do mundo em um mundo religioso, imaginário, e outro real. Sua tarefa consiste em decompor o mundo religioso em sua base terrena. Não vê que, uma vez realizado esse trabalho, o principal continua por fazer. Na realidade, o fato de que a base terrena se separe de si mesma e fixe nas nuvens um reino independente só pode ser explicado através da dilaceração interna e da contradição desse fundamento terreno consigo mesmo. Este último deve, portanto, primeiro ser compreendido em sua contradição e em seguida revolucionado praticamente mediante a eliminação da contradição. Por conseguinte, depois de descobrir, por exemplo na família terrena o segredo da sagrada família, é preciso criticar teoricamente aquela e transformá-la praticamente.



V



Não satisfeito com o pensamento abstrato, Feuerbach recorre à percepção sensível. Não concebe, porém, a sensibilidade como uma atividade prática, humano-sensível.




VI


Feuerbach dilui a essência religiosa na essência humana. Mas a essência humana não é algo abstrato, interior a cada indivíduo isolado. É, em sua realidade, o conjunto das relações sociais.


Feuerbach, que não emprende a critica dessa essência real, vê-se, portanto, obrigado 1- a fazer caso omisso da trajetória histórica, fixar o sentimento religioso em si mesmo e pressupor um indivíduo humano abstrato, isolado; 2 - nele, a essência humana só pode ser concebida como "espécie", como generalidade interna, muda, que se limita a unir naturalmente os muitos indivíduos.




VII


Feuerbach não vê, portanto, que o "sentimento religioso" é, também, um produto social e que o indivíduo abstrato que ele analisa pertence, na realidade, a uma forma determinada de sociedade.




VIII


A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que desviam a teoria para o misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.



IX



O máximo a que chega o materialismo perceptivo, isto é, o materialismo que não concebe a sensibilidade como uma atividade prática, é a percepção dos diferentes indivíduos isolados da «sociedade civil".


X



O ponto-de-vista do antigo materialismo é a sociedade "civil"; o do novo materialismo, a sociedade humana ou a humanidade socializada.



XI


Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se porém de modificá-lo.
Teses sobre Feuerbach, Karl Marx.
(...)

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência.


Se me pergunto em que julgar se uma questão é mais urgente do que outra, respondo que é com ações a que ela induz. Eu nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Se é a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas. E como responder a isso? A respeito de todos os problemas essenciais, o que entendo como sendo os que levam ao risco de fazer morrer ou os que multiplicam por dez toda a paixão de viver, provavelmente só há dois métodos para o pensamento: o de La Palisse e o de Don Quixote. É o equilíbrio da evidência e do lirismo o único que pode nos permitir aquiescer ao mesmo tempo à emoção e à clareza.

(...)

Albert Camus, O Mito de Sísifo.

domingo, 3 de abril de 2011

ENTREVISTA LEOS CARAX

Todos os Fogos o Fogo

"Atrás, o Volkswagen, o Caravelle, o 203 e o Floride arrancavam, por sua vez, lentamente, um trecho em primeira, depois segunda, interminavelmente segunda mas já sem embrear, como tantas vezes, com o pé firme no acelerador, esperando poder passar para a terceira. Esticando o braço esquerdo o 404 procurou a mão de Dauphine, encostou apenas a ponta dos dedos, percebeu em seu rosto um sorriso de incrédula esperança e pensou que iam chegar a Paris, que tomariam banho, que iriam juntos a qualquer parte, à sua casa ou à dela para tomar banho, comer, tomar banho interminavelmente e comer e beber, e que depois haveria móveis, haveria um quarto com móveis e um banheiro com espuma de sabão para fazer a barba de verdade, e privadas, comida e privada e lençóis, Paris era uma privada e dois lençóis e água quente escorrendo no peito e nas pernas, e uma tesourinha de unhas, e vinho branco, beberiam vinho branco antes de se beijar e sentir cheiro de lavanda e colônia, antes de se conhecer de fato em plena luz entre lençóis limpos, e tornar a tomar banho de brincadeira, amar-se e tomar banho e beber e entrar no cabelereiro, entrar no banho, acariciar os lençóis, e acariciar-se entre os lençóis e amar-se entre a espuma e a lavanda e as escovas antes de começar a pensar no que iam fazer, no filho e nos problemas e no futuro, e tudo isso desde que não parassem, que a coluna continuasse andando, embora ainda não se pudesse passar para a terceira, continuar assim em segunda, mas continuar".

CORTÁZAR, Julio, 1914-1984. Todos os Fogos o Fogo (Todos los Fuegos el Fuego)- conto "A Auto-Estrada do Sul", Argentina, 1966.

sexta-feira, 1 de abril de 2011


Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro, Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim. Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei. Eu reinei no que nunca fui.

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