quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Carta 133 – Julho 1880



“Meu caro Théo,

É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos. Até certo ponto você se tornou um estranho para mim, e eu talvez o seja para você mais do que você imagina; talvez fosse melhor para nós dois não continuarmos assim. É impossível que nem mesmo agora eu lhe tivesse escrito, não fosse o fato de eu me sentir na obrigação, na necessidade de lhe escrever; não fosse o fato de você mesmo me fazer sentir esta necessidade. Soube em Etten que você tinha me enviado cinqüenta francos. Pois bem, eu os aceitei. Certamente a contragosto, certamente com um sentimento bem melancólico, mas estou numa espécie de beco sem saída ou de atoleiro, como fazer de outro modo? E é portanto para agradecer que lhe escrevo. Como talvez você já saiba, voltei ao Borinage (Região das minas de carvão onde Vincent desenvolveu sua relação com os mineiros), meu pai me disse que seria melhor ficar pelas vizinhanças de Etten: eu disse que não e acredito ter agido melhor assim. Involuntariamente, tornei-me na família uma espécie de personagem impossível e suspeito, seja como for, alguém que não merece confiança. A quem poderia eu ser útil de alguma maneira? É por isto que antes de mais nada, sou levado a crer, seja vantajoso, e melhor resolução a tomar, e o mais razoável, que eu vá embora e me mantenha a uma distância conveniente, que eu faça como se não existisse.

O que para os pássaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis, são para nós, seres humanos. Podemos permanecer neste tempo de muda, podemos também deixá-lo como que renovados, mas de qualquer forma isso não se faz em público, é pouco divertido, e por isto convém eclipsar-se. Pois seja.

Agora, por mais que reconquistar a confiança de toda uma família, talvez não totalmente desprovida de preconceitos e outras qualidades igualmente honoráveis e elegantes, seja de uma dificuldade mais ou menos desesperadora, eu ainda tenho algumas esperanças de que pouco a pouco, lenta e seguramente, a cordial compreensão seja restabelecida com uns e outros.

Assim é que em primeiro lugar eu gostaria muito de ver esta cordial compreensão, para não dizer mais, restabelecida entre meu pai e eu, e desejaria muito que ela igualmente se restabelecesse entre nós dois. Compreensão cordial vale infinitamente mais que mal-entendido. Preciso agora lhe aborrecer com algumas coisas abstratas, no entanto gostaria muito que você as escutasse com paciência. Sou um homem de paixões, capaz de, e sujeito a fazer coisas mais ou menos insensatas, das quais às vezes me arrependo mais ou menos. Muitas vezes me ocorre falar ou agir um pouco depressa demais, quando seria melhor esperar com um pouco mais de paciência. Acredito que outras pessoas também possam às vezes cometer semelhantes imprudências.

Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me como um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não. Mas trata-se de por todos os meios tirar destas paixões o melhor partido. Por exemplo, para falar de uma paixão entre outras, tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão. Você poderá entender isto. Quando eu estava num ambiente de quadros e de coisas de arte, você sabe muito bem que fui tomado por uma paixão violenta, que chegava ao entusiasmo. E não me arrependo, e ainda agora, longe dele, muitas vezes sinto saudade do mundo dos quadros.

Você talvez se lembre bem que eu sabia perfeitamente (e pode ser que ainda o saiba) o que era um Rembrandt, ou o que era um Millet, um Jules Dupré, um Delacroix, um Millais ou um Maris? Bom – agora não estou mais neste ambiente, no entanto esta coisa que se chama alma pretende-se que não morre jamais, e que vive sempre e busca sempre mais e mais e ainda mais. Em vez de sucumbir de saudades, eu disse: “O país ou a pátria estão em todos os lugares”. Em vez de me deixar levar pelo desespero, tomei o partido da melancolia ativa enquanto a tinha a potência de atividade, ou em outras palavras, preferi a melancolia que espera e que aspira e que busca, àquela que embota e, estagnada, desespera.

Portanto, estudei mais ou menos seriamente os livros ao meu alcance, como a Bíblia e a Revolução Francesa de Michelet, e, no último inverno, Shakespeare e um pouco de Victor Hugo e Dickens, e Beecher Stowe e ultimamente Ésquilo e muitos outros, menos clássicos, vários grandes pequenos mestres. Você bem sabe que, entre os que se classificam como pequenos mestres encontram-se um Fabritius ou um Bida. Agora quem é absorvido por tudo isto às vezes é chocante, shocking para os outros, e sem querer peca mais ou menos contra os usos e formas e conveniências sociais.

No entanto, é pena que se leve isto a mal. Por exemplo, você sabe que freqüentemente eu negligenciei meu asseio, eu o admito, e admito que isto seja shocking. Mas veja bem, a penúria e a miséria contribuíram de algum modo para isto, e depois às vezes este é um bom método para garantir a solidão necessária, para poder aprofundar mais ou menos este ou aquele estudo que nos preocupa.

Um estudo muito necessário é o da medicina, não há um homem que não tenha desejado conhecê-la um mínimo que seja, que não tenha procurado saber pelo menos de que se trata e, veja, eu ainda não sei nada disto. Mas tudo isto me absorve, tudo isto me preocupa, tudo isto me faz sonhar, imaginar e pensar? Já fazem agora talvez cinco anos, não sei ao certo, que vivo mais ou menos sem lugar, errando aqui e ali. Agora vocês dizem desde tal ou qual época você caiu, você se apagou, você não fez mais nada. Será que isto é totalmente verdade?

É verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos; é verdade que minha situação pecuniária está num triste estado; é verdade que o futuro me é bem sombrio; é verdade que eu poderia ter feito melhor; é verdade que meus próprios estudos estão num estado lamentável e desesperador, e que me falta mais, infinitamente mais do que o que eu tenho. Mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada?

Talvez você diga: mas por que você não continuou como gostaríamos que continuasse, pelo caminho da universidade? Não responderei mais do que isso: é muito caro; e ademais este futuro não seria melhor do que o de agora, no caminho em que estou. Mas no caminho em que estou devo continuar – se eu não fizer nada, se não estudar, se não procurar mais, então estarei perdido. Então, ai de mim.

Eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário. Mas qual é o seu objetivo definitivo?, você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço e o esboço que se torna quadro, à medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a idéia, no início e vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro, a menos que o fixemos.

Você deve saber que entre os missionários acontece o mesmo que com os artistas. Há uma velha escola acadêmica muitas vezes execrável, tirânica, a abominação da desolação, enfim, homens que têm uma espécie de couraça, uma armadura de aço de preconceitos e convenções; estes, quando estão à testa dos negócios, dispõem dos cargos e, por meios indiretos, buscam manter seus protegidos e excluir os homens naturais.

Seu Deus é como o deus do beberrão Falstaff de Shakespeare, “o interior de uma igreja”, “the inside of a church”; na verdade certos senhores missionários (???) se acham por uma estranha coincidência (e talvez eles próprios, se fossem capazes de alguma emoção humana, ficariam um pouco surpresos de aí se acharem) plantados no mesmo ponto de vista que o beberrão típico tem das coisas espirituais. Mas há pouco a temer que algum dia sua cegueira a este respeito se transforme em clarividência.

Este estado de coisas tem seu lado ruim para quem não está de acordo com tudo isto, e que de toda sua alma, de todo coração, e com toda a indignação de que é capaz, protesta contra isto. Quanto a mim, respeito os acadêmicos que não são como estes; mas os respeitáveis são mais raros do que acreditaríamos à primeira vista. Agora, uma das causas pelas quais eu estou agora deslocado – e por que durante tantos anos estive deslocado – é simplesmente porque tenho idéias diferentes das desses senhores que dão cargos àqueles que pensam como eles. Não se trata de uma simples questão de asseio, como hipocritamente me censuraram, é uma questão mais séria que isto, posso lhe garantir.

Por que lhe digo tudo isto? Não é para me queixar, não é para me desculpar naquilo em que eu possa ter mais ou menos errado, mas simplesmente para lhe dizer isto:

Quando de sua última visita no verão passado, quando nós dois passávamos perto da caverna abandonada. que chama de “A Feiticeira”, você me lembrou que houve uma época em que também passeávamos os dois perto do velho canal e do moinho de Rijswick, “e então”, você me dizia, “nós estávamos de acordo sobre muitas coisas, mas”, você acrescentou, “desde então mudou muito, você já não é mais o mesmo”. Pois bem, isto não é bem assim; o que mudou, é que minha vida era então menos difícil, e meu futuro aparentemente menos sombrio; mas quanto ao meu íntimo, quanto à minha maneira de ver e de pensar, nada disto mudou, e se de fato houvesse alguma mudança, é que agora eu penso e acredito e amo mais serenamente aquilo que na época eu também já pensava, acreditava e amava.

Seria portanto um mal-entendido se você persistisse em acreditar que, por exemplo, agora eu seria menos caloroso por Rembrandt ou Millet ou Delacroix ou quem ou o que quer que fosse, pois acontece justo o contrário, apenas, veja você, há várias coisas em que acreditar e amar, e há algo de Rembrandt em Shakespeare, e de Corrège em Michelet, e de Delacroix em Victor Hugo e ainda há algo de Rembrandt no Evagelho e algo do Evangelho em Rembrandt, como queira, isto dá mais ou menos na mesma, desde que se entenda a coisa como bom entendedor, sem querer desviá-la para o mau sentido e se levarmos em conta os termos da comparação, que não tem a pretensão de diminuir os méritos das personalidades originais. E em Bunyan há algo de Maris ou de Millet e em Beecher Stowe há algo de Ary Scheffer.

Agora, se você pode perdoar um homem que se aprofunda nos quadros, admita também que o amor aos livros é sagrado quanto o amor a Rembrandt, e inclusive acredito que os dois se completam. Gosto muito do retrato de homem de Fabritius que certo dia, ao passearmos também os dois, contemplamos longamente no museu do Harlem. Bom, mas eu gosto da mesma forma de Richard Cartone, de Dickens em sua Paris e sua Londres de 1793, e eu poderia ainda lhe mostrar outras figuras estranhamente comoventes em outros livros, com semelhanças mais ou menos impressionantes. E acredito que Kent, um personagem do Rei Lear de Shakespeare, é tão nobre e distinto quanto uma figura de Th. De Keyser, embora Kent e Rei Lear tenham supostamente vivido muito tempo antes. Isto para não dizer mais nada. Meu Deus, como é belo Shakespeare. Quem é misterioso como ele? Sua palavra e sua maneira de fazer equivalem a um pincel fremente de febre e emoção. Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver. Portanto, você não deve acreditar que eu renegue isto ou aquilo, sou uma espécie de fiel na minha infidelidade e, embora mudado, sou o mesmo e meu tormento não é mais do que este: no que eu poderia ser bom?

Não poderia eu servir e ser útil de alguma maneira? Como poderia saber mais e aprofundar este ou aquele tema? Como você vê, isto me atormenta continuamente. Além disto, sinto-me como um prisioneiro do meu tormento, excluído de participar nesta ou naquela obra, e tendo estas ou aquelas coisas necessárias fora de meu alcance. Por isto sentimo-nos melancólicos, e sentimos grandes vazios ali onde poderiam existir amizades e elevadas e sérias afeições, e sentimos um terrível desânimo corroendo nossa própria energia moral, e a fatalidade parece poder colocar obstáculos aos instintos de afeição, e uma maré de desgosto nos invade. E então dizemos: até quando, meu Deus? O que você quer? O que se passa no íntimo revela-se exteriormente? Fulano tem uma grande chama queimando em sua alma, e ninguém jamais vem nela se esquentar, e os transeuntes só percebem um pouquinho de fumaça no alto da chaminé e seguem então seu caminho. E agora, o que fazer? Sustentar esta chama interior, ter substância em si mesmo, esperar pacientemente, e no entanto com quanta impaciência, esperar, dizia, a hora que alguém desejará aproximar-se – e ficar? Que sei eu? Quem quer que acredite em Deus, que espere a hora que cedo ou tarde chegará.

Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois de tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça, mas no caso de acontecer alguma mudança para melhor, computaria isto como um ganho, ficaria contente, e diria: “Enfim, afinal havia alguma coisa”. Mas no entanto – você dirá – você é um ser execrável, já que tem idéias impossíveis sobre a religião, e escrúpulos de consciência pueris. Se os tenho impossíveis ou pueris, possa eu me livrar disto, é tudo o que peço. Mas veja mais ou menos o ponto em que me encontro. Você encontrará em O filósofo sob os tetos, de Souvester, como um homem do povo, um simples operário muito miserável que seja, se imaginava a pátria. “Você talvez jamais pensou no que é a pátria”, retomou ele pousando uma mão em meu ombro, “é tudo o que te envolve, tudo o que te criou e te alimentou, tudo que amaste, este campo que vês, estas casas, estas árvores, estas jovens que passam ali rindo, são a pátria. As leis que te protegem, o pão pago por teu trabalho, as palavras que tu trocas, a alegria e a tristeza provenientes das coisas ou dos homens entre os quais vives, são a pátria. O quartinho onde outrora viste tua mãe, as lembranças que ela te deixou, a terra em que ela repousa são a pátria. Tu a vês, tu a respiras em todos os lugares. Imagines os direitos e os deveres, as afeições e as necessidades, as lembranças e o reconhecimento, reúne tudo isso numa palavra será a pátria”.

Ora, da mesma forma tudo o que é verdadeiramente bom e belo, de beleza interior moral, espiritual e sublime nos homens e em suas obras, acredito que vem de Deus, e tudo o que há de ruim e de mau nas obras dos homens e nos homens, não é de Deus, e Deus também não o acha bom. Mas involuntariamente sou levado a crer que a melhor maneira de conhecer Deus é amar muito. Ame tal amigo, tal pessoa, tal coisa, o que quiser, e você estará no bom caminho para depois saber mais, eis o que eu digo a mim mesmo. Mas é preciso amar com uma grande e séria simpatia íntima, com vontade, com inteligência, e é preciso sempre procurar saber mais, melhor e mais. Isto conduz a Deus, isto conduz à fé inabalável.

Para citar um exemplo, alguém que ame Rembrandt, mas ame-o seriamente saberá que há um Deus, e Nele terá fé. Alguém que se aprofunde na história da Revolução Francesa – não será incrédulo, verá que também nas grandes coisas há uma potência soberana que se manifesta. Alguém que tenha assistido, mesmo que por pouco tempo, ao curso gratuito da grande universidade da miséria e que tenha prestado às coisas que seus próprios olhos vêem e que seus ouvidos percebem, e que tenha refletido sobre isto, também acabará por crer e talvez aprenda mais do que imagina. Procure entender a fundo o que dizem os grandes artistas, os verdadeiros artistas, em suas obras-primas, e encontrará Deus nelas. Um o terá dito ou escrito num livro, outro, num quadro. Depois, leia simplesmente a Bíblia e o Evangelho: isso dá o que pensar, muito em que pensar, tudo em que pensar. Pois bem, pense este muito, pense este tudo, isto eleva seu pensamento acima do nível ordinário, independente de você. Já que sabemos ler, leiamos então.

Depois, às vezes pode-se até ficar um pouco abstraído, um pouco sonhador. Há quem fique abstraído demais, sonhador demais; talvez seja o que ocorre comigo, mas é minha culpa. Afinal, quem sabe, não havia motivo para isto. Estava abstraído, preocupado, inquieto por uma ou outra razão, mas a gente se refaz! O sonhador às vezes cai num poço, mas dizem que logo ele se reergue. E o homem abstraído, em compensação, por vezes também tem sua presença de espírito. Às vezes é um personagem que tem sua razão de ser por um ou outro motivo que não distinguimos à primeira vista, ou que, na maioria das vezes, esquecemos involuntariamente. Fulano, que andou agitado como se estivesse num mar tempestuoso, chega enfim ao seu destino: um outro que parecia não valer nada e ser incapaz de exercer qualquer função acaba por encontrar uma e, ativo e capaz de agir, mostra-se totalmente outro do que parecia à primeira vista. Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.

Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes. Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”. Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.

Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor. “Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.” Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo… E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível. Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.

Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros. Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade? Você sabe o que faz desaparecer a prisão. E toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte.
Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida. Além disso, às vezes a prisão se chama preconceito, mal-entendido, ignorância, falta disto ou daquilo, desconfiança, falsa vergonha. Mas para falar de outra coisa, se eu caí, por outro lado você subiu. E se eu perdi simpatias, você por seu lado as ganhou. Eis o que me deixa contente; falo sério e isto sempre me alegrará. Se você fosse pouco sério e pouco profundo, eu poderia temer que isso não durasse muito, mas como acredito que você seja muito sério e muito profundo, sou levado a crer que isto durará. Só que se lhe fosse possível ver em mim algo mais que um vagabundo da pior espécie eu ficaria muito contente. Então se eu puder alguma vez fazer algo por você, ser-lhe útil em alguma coisa, saiba que estou à sua disposição.

Se aceitei o que você me deu, você também poderia, caso de alguma forma eu puder ajudá-lo, pedir-me: eu ficaria contente e consideraria isso uma prova de confiança. Nós estamos muito distantes um do outro e podemos ter pontos de vista diferentes; contudo, em dado momento, algum dia, poderíamos ajudar-nos um ao outro. Por hoje eu lhe aperto a mão, agradecendo novamente a bondade que você teve comigo. Agora, se mais cedo ou mais tarde você quiser me escrever, meu endereço é chez Ch. Decrucq, rue du Pavillon 8, em Cuesmes, perto de Mons.
E saiba que escrevendo-me você me fará bem.

Do seu,

VINCENT


Estou registado como Libertário. Gosto dessa filosofia. O Partido Libertário não conta e nem tem candidatos. Mas eu acredito que viveremos melhor se deixarmos as pessoas em paz, se desistirmos de arranjar maneiras de dirigir as vidas alheias. Talvez este modo de pensar seja pouco prático, ou obsoleto. Mas foi assim que eu fui educado.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Portrait du Docteur Gachet


Pour Van Gogh comme Baudelaire, la mélancolie était la marque de la condition de l'homme de son temps. Exprimer ceci était donc une part de son travail en tant qu'artiste. Le docteur Paul Gachet, personnage dans lequel Van Gogh se retrouvait beaucoup, se tient la tête appuyée sur la main, dans la pose convenue de la mélancolie : deux romans des fréres Goncourt, Manette Salon et Germinie Lacerteux attestent la modernité de cette version contemporaine des états d'âme. La fleur digitale, telle l'attribut d'un saint, est ici signe de la vocation médicale de gachet. À sa soeur, Van Gogh écrit : << Ce qui me passionne le plus, beaucoup, beaucoup devantage que tout le rest de mon métier, c'est le portrait. Je voudrais faire des portraits que un siécle plus tard aux gens d'alors apparussent comme des apparitions. >>

Projeções de Buñuel


«A sua (de Luis) alimentação quotidiana era comparável à dum esquilo e, com temperaturas abaixo de zero, apesar da neve, usava muito pouca roupa e andava com os pés nus numas sandálias de monge. O meu pai ficava zangadíssimo. Orgulhoso, no fundo, de ter um filho capaz de tais coisas, não o mostrava e zangava-se quando o via levantar uma perna e depois a outra para lavar os pés na água gelada dum lavatório, operação que repetia com a mesma frequência com as mãos. Tinhamos nessa altura (ou talvez mais cedo, nunca me entendi bem com datas) uma enorme ratazana do tamanho de uma lebre, sujíssima e de rabo áspero, que tratávamos como se fosse da família. Levávamo-la connosco, em todas as viagens, numa gaiola de papagaio e durante muito tempo complicou-nos bastante a vida. A pobrezinha morreu como uma santa, com sintomas mais que evidentes de envenenamento. Tínhamos cinco criadas e nunca conseguimos descobrir qual delas foi a assassina. Esquecêmo-la em menos tempo do que o cheiro dela levou a desaparecer.

Sempre tivemos animais: macacos, papagaios, falcões, sapos, rãs, uma ou duas cobras, e um grande lagarto africano que a cozinheira, apavorada, esmagou sadicamente em cima do fogão com um ferro da cozinha.

Nunca mais me esqueci do carneiro Gregorio que me ia partindo o fémur e a bacia quando eu tinha dez anos. Creio que tinha vindo de Itália, muito novo. Foi sempre falsíssimo e gostava muito mais de Néné, o cavalo.

Tínhamos uma grande caixa de chapéus, de cartão, cheia de ratos cinzentos. O Luis era o dono deles e só me deixava vê-los uma vez por dia. Tinha escolhido alguns casais que, bem alimentados e estupidificados, procriavam incessantemente. Antes de partir, levava-os para o sótão e com grande escândalo do caseiro, restituía-lhes a liberdade e recomendava-lhes que "crescessem e se multiplicassem".

Sempre amámos e respeitámos tudo o que vive, mesmo de vida vegetal. Penso que todos eles, também, nos amavam e respeitavam. Podíamos atravessar uma selva cheia de feras, como as dos livros de Salgari, sem correr qualquer risco. Única excepção: AS ARANHAS.

Horrendos e horríveis monstros esses, que a qualquer minuto nos podem privar da alegria de viver. Uma estranha morbidez buñuelesca fez sempre delas o tema principal das nossas conversas em família. As nossas histórias acerca das aranhas são fabulosas (...)

(...) Durante um dos verões que passámos em Calanda, tivemos a "grande aventura" da nossa infância. O Luis devia ter nessa altura 13 ou 14 anos. Decidimos ir a uma aldeia das redondezas, sem licença dos nossos pais. Estávamos com uns primos da nossa idade e saímos de casa, nem sem bem porquê, vestidos como se fôssemos para uma festa. A aldeia, a cinco quilómetros dali, chamava-se Foz. Tínhamos lá terras e caseiros. Visitamo-los todos e ofereceram-nos vinho doce e bolos de azeite. O vinho deu-nos uma tal euforia e uma tal coragem que resolvemos ir ao cemitério. Pela primeira vez na minha vida, visitei um sítio desses, sem medo nem espanto. Lembro-me do Luis estendido na mesa das autópsias a pedir que lhe tirassem as vísceras. Também me lembro da força que tivemos que fazer para tirar a cabeça duma das nossas irmãs dum buraco que o tempo tinha feito numa sepultura. Tinha-a metido lá tão bem ou tão mal que o Luis teve de arrancar pedaços de gesso com as unhas para a libertar.

(...) Depois da nossa visita inconscientemente sacrílega ao cemitério, decidimos voltar para casa por montes e vales, sem uma árvore e com um calor de rachar, à procura da para nós fabulosa gruta "Morena". O vinho doce continuava a ajudar-nos e por isso fomos capazes de fazer o que as pessoas crescidas não são: saltar para dento dum buraco fundo e estreito, subir por outro, horizontal, e chegar à primeira caverna. O nosso único equipamento de espeleólogos era um bocado de vela, que tinha ficado de algum enterro, e que tínhamos trazido do cemitério. Enquanto deu luz, andámos. De repente, acabou-se tudo: luz, coragem e alegria. Ouvíamos bater as asas dos morcegos que o Luis nos dizia serem pré-históricos, mas que sabia defender-nos deles. Algum tempo depois, um de nós disse que tinha fome. O Luis ofereceu-se, heroicamente, para ser comido. Já nessa altura, ele era o meu ídolo e desatei a choorar, pedindo para me comerem antes a mim, que era a mais nova, a mais tenra e a mais estúpida da primeira série de irmãos e irmãs.

Esqueci-me da angústia daquelas horas, como nos esquecemos das dores físicas. Mas lembro-me muito bem da alegria que tivemos quando nos encontraram e do medo do castigo. Não o houve, devido à nossa lamentável situação. Voltámos "ao doce lar" numa carroça puxada por Néné. O meu irmão desmaiara, não sei se com a bebedeira, a insolação, ou por táctica.
(...)

"Recuerdos" de Conchita Buñuel.
"Não há nada de novo a dizer sobre “La Tour de Nesle”. Todos sabem que se trata de um filme encomendado com um orçamento absurdo, do qual a melhor parte ficou nas gavetas do distribuidor. “La Tour de Nesle” é, por assim dizer, o filme menos bom da obra de Abel Gance. Como Abel Gance é um génio, “La Tour de Nesle” é um filme genial. Abel Gance não tem qualquer génio, é sim dominado por ele, ou seja, se lhe derem uma câmara portátil e o puserem entre vinte operadores de câmara da actualidade, na saída do Palais-Bourboun ou na entrada do Parque dos Príncipes, sozinho, dar-vos-à uma obra-prima, formada por alguns metros de película, em que cada plano, cada imagem, cada 1/16 ou 1/24 de segundo terão a marca do génio, invisível e presente, visível e omnipresente. Como faz para conseguir isto? Só ele sabe. A bem dizer, creio que nem ele sabe […]

Chamámos a Gance um “falhado” e, recentemente, um “falhado genial”. […] A questão é saber se é possível ser-se, simultaneamente, genial e falhado. Eu creio que o falhanço implica talento. Conseguir é falhar. Quero, então, defender esta tese: Abel Gance, autor falhado de filmes falhados. Estou convencido de que não há grandes cineastas que não sacrifiquem algo: Renoir sacrificaria tudo (argumento, dialogo, técnica), em prol de uma melhor interpretação por parte do actor; Hitchcock sacrificaria a verosimilhança policial para beneficiar uma situação previamente escolhida; Rossellini sacrifica os raccords de movimento e de luz em troca de maior frescura – ou calor, é o mesmo – dos intérpretes; Murnau, Hawks, Lang sacrificam o realismo dos enquadramentos e do ambiente; Nicholas Ray e Griffith, a sobriedade (noção de sacrifício nas obras geniais.) Ora, para a equipa ancestral, num filme bem-sucedido, todos os elementos contribuem de igual forma para um todo, que merece o adjectivo de “perfeito”. Mas a perfeição, o sucesso, considero-os abjectos, indecentes, imorais e obscenos; a propósito, o filme mais detestável é, sem dúvida, “La kermesse héroïque” [de Jacques Feyder, 1935], por tudo o que contém de concluído, de audácias atenuadas, de sensatez, de comedido, de portas entreabertas, de caminhos delineados, e somente delineados, de tudo o que é agradável e perfeito. Todos os grandes filmes da História do Cinema são filmes “falhados”."

François Truffaut,
“Abel Gance, désordre et génie”
(excerto)
“Cahiers du cinema”, n.º 47,
Maio de 1955.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Go to the First Painting


Bem, eu tinha 15 anos na época, vivia em Phoenix, Arizona. Um primo de segundo grau tinha um amigo que tinha um amigo que era criador de Hogan's Heroes. [Através desta ligação, Spielberg visitou o homem em seu escritório]. Este sujeito falou, "Bem, você quer ser um cineasta?" e eu lhe disse, "Sim, e ele respondeu, "Estou na Televisão". Você quer falar com o cara da porta ao lado? É John Ford." Eu disparei, "Você tem John Ford aí na porta ao lado?". Ele confirmou, "sim, a sua secretária é bem legal". Assim, me dirigi até a porta ao lado, e a secretária informou, "o Sr. Ford está no horário de almoço, mas ele retornará em alguns minutos, então por que não se senta um pouco e espera?". E assim esperei e conversei, e lhe falei a respeito dos meus filmecos em 8mm rodados em Phoenix, e eis que de repente surge um homem tomado por um completo aparato de safari, uma tapadeira no olho, com um charuto entre os dedos invadindo a sala. Ela disse, "O Sr. Ford vai te arender em alguns minutos." Dessa forma, caminhei pelo lugar enquanto ele se acomodava com suas enormes botas de cowboy à mesa. Isto me fez lembrar de uma cena de It's a Wonderful Life quando Jimmy Stewart senta-se de frente para o Sr. Potter. O Sr. Potter propositadamente mantém a cadeira à sua frente, Jimmy Stewart chega a lembrar um dos Little Rascals, uma vez que se senta no assento e se encolhe. Fiz exatamente a mesma coisa. Ford se dirigiu a mim, "Então você que ser um diretor de Cinema?", e eu lhe disse que sim. "O que é que você fez até agora?". Disse que tinha 15 anos, e argumentei, "Fiz alguns filmes em 8mm e pretendo freqüentar a escola em Phoenix, Arizona". "Tudo bem, o que você conhece a respeito de tomadas de imagem?", "O que você sabe sobre os quadros?", "O que você sabe sobre arte?", "Você tem de conhecer a arte". Suponho que estivesse calado. "Bom, levante-se e passe a vista por essa sala. O que consegue ver por sobre as paredes ali?". Eu disse, "arte". "Vá ao primeiro quadro". E, a propósito, eram todos quadros de Western, provavelmente Russells, Remingtons, mas não sabia desses nomes até então.

 Ford disse, "Diga-me, o que consegue enxergar?". Eu disse, "Bem, há um cowboy montado num cavalo". Ele disse, "Não, não, não, não, onde está o horizonte?". Eu disse, "Bem, o horizonte está a um par de centímetros acima do fundo da imagem." Ele disse, "OK. Vá ao próximo quadro, o que você consegue enxergar?". Eu disse, "Há um punhado de índios montados a cavalo". "Não, não, onde está o horizonte?". "Bem, o horizonte está bem no topo do quadro?". "Vá ao próximo. O que enxerga aí?". Eu disse, "Não há horizonte algum". Ele disse, "Não, não, quais foram os objetos trabalhados no quadro?". Eu disse, "Há um índio e um cowboy." E então, ainda sentado na sua cadeira, ele se aproxima, e diz, "Olha, garoto, no dia em que você puder dizer que uma tomada é notável quando o horizonte estiver bem no fundo do quadro acompanhado por todo o firmamento, ou quando o horizonte estiver bem no topo do quadro acompanhado por todo o terreno, e possa reconhecer o fato de que quando o horizonte for diretamente ao centro do quadro, sendo um quadro ruim, quando você for capaz de reconhecer isso, terá uma chance no ramo".

Steven Spielberg, tradução de Felipe Medeiros.

Vontade de Voltar à Escola

Aqui transcrevo os mandamentos da Rogue Film School, nova escola de cinema do pedaço, bolada por ninguém menos que Werner Herzog, publicados no seu site oficial (http://www.roguefilmschool.com/). Delicioso ver alguém à esta altura a falar de coisas como êxtase da verdade e viagens a pé:

“A Rogue Film School não irá ensinar nenhuma técnica relacionada a cinema. Para esse fim, por favor matricule-se na escola de cinema mais perto de você.”

“A Rogue Film School é sobre um estilo de vida. É sobre um clima, a excitação que torna um filme possível. É sobre poesia, filmes, imagens, literatura.”

“O foco dos seminários será um diálogo com Werner Herzog, em que os participantes irão encontrar sua voz para seus projetos, seus questionamentos, suas aspirações.”

“Trechos dos filmes serão debatidos, e isso pode incluir os seus. Dependendo do material, a atenção irá se concentrar em questões essenciais: Como a música funciona em um filme? Como narrar uma história (isso certamente irá se distanciar das lições acéfalas sobre roteiros em três atos)? Como sensibilizar o público? Como o espaço é criado e entendido pelos espectadores? Como produzir e editar um filme? Como iluminar o público e criar o êxtase da verdade?”

“Outros assuntos relacionados serão: viajar a pé, a alegria de ser alvo de tiros malsucedidos, o lado atlético do cinema, a falsificação de permissões de filmagem, a neutralização da burocracia, táticas de guerrilha, autoconfiança.”

“A censura será estimulada. Não haverá conversas sobre xamãs, classes de yoga, valores nutricionais, chás de ervas, a descoberta dos próprios limites, crescimento interno.”

“Siga sua visão."
[...]


Tivemos os cravos de 74. Se toda a gente podia filmar, eu também podia. Nesse tempo, só queria ter uma camarazita. Hoje já não penso assim. Acho que para filmar nem sequer preciso de uma câmara: preciso de um pouco de luz na minha cabeça e basta. Mas nessa altura, quase toda a gente me dizia que os filmes que eu fazia eram uma merda, que não tinha talento nenhum e sobretudo (e isso é que eu não suportava) que o que eu devia fazer era escrever porque para escrever tinha imenso jeito. Argumentava, ainda que debilmente, que não me importava nada de fazer merdas, desde que fossem minhas, que me estava nas tintas para o talento, e não sei que mais. Mas, para ser franco, comecei a ter ciúmes do escriba Monteiro. Foi então que decidi matá-lo, para que o rebento pudesse filmar livremente.


[...]


Excerto da resposta de João César Monteiro à pergunta Por que é que filma?, de Jacques Déniel, e publicada (em francês) no catálogo dos 5ºs Encontros Cinematográficos de Dunquerque, em 1991.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Flamengo Sessentão


Por Nelson Rodrigues


Corria o ano de 1911. Vejam vocês: — 1911! O bigode do kaiser estava, então, em plena vigência; Mata-Hari, com um seio só, ateava paixões e suicídios; e as mulheres, aqui e alhures, usavam umas ancas imensas e intransportáveis. Aliás, diga-se de passagem: — é impossível não ter uma funda nostalgia dos quadris anteriores à Primeira Grande Guerra. Uma menina de catorze anos para atravessar uma porta tinha que se pôr de perfil. Convenhamos: — grande época! grande época!

Pois bem. Foi em 1911, tempo dos cabelos compridos e dos espartilhos, das valsas em primeira audição e do busto unilateral de Mata-Hari, que nasceu o Flamengo. Em tempo retifico: — nasceu a seção terrestre do Flamengo. De fato, o clube de regatas já existia, já começava a tecer a sua camoniana tradição náutica. Em 1911, aconteceu uma briga no Fluminense. Discute daqui, dali, e é possível que tenha havido tapa, nome feio, o diabo. Conclusão: — cindiu-se o Fluminense e a dissidência, ainda esbravejante, ainda ululante, foi fundar, no Flamengo de regatas, o Flamengo de futebol.

Naquele tempo tudo era diferente. Por exemplo: — a torcida tinha uma ênfase, uma grandiloqüência de ópera. E acontecia esta coisa sublime: — quando havia um gol, as mulheres rolavam em ataques. Eis o que empobrece liricamente o futebol atual: — a inexistência do histerismo feminino. Difícil, muito difícil, achar-se uma torcedora histérica. Por sua vez, os homens torciam como espanhóis de anedota. E os jogadores? Ah, os jogadores! A bola tinha uma importância relativa ou nula. Quantas vezes o craque esquecia a pelota e saía em frente, ceifando, dizimando, assassinando canelas, rins, tórax e baços adversários? Hoje, o homem está muito desvirilizado e já não aceita a ferocidade dos velhos tempos. Mas raciocinemos: — em 1911, ninguém bebia um copo d’água sem paixão.

Passou-se. E o Flamengo joga, hoje, com a mesma alma de 1911. Admite, é claro, as convenções disciplinares que o futebol moderno exige. Mas o comportamento interior, a gana, a garra, o élan são perfeitamente inatuais. Essa fixação no tempo explica a tremenda força rubro-negra. Note-se: — não se trata de um fenômeno apenas do jogador. Mas do torcedor também. Aliás, time e torcida completam-se numa integração definitiva. O adepto de qualquer outro clube recebe um gol, uma derrota, com uma tristeza maior ou menor, que não afeta as raízes do ser. O torcedor rubro-negro, não. Se entra um gol adversário, ele se crispa, ele arqueja, ele vidra os olhos, ele agoniza, ele sangra como um césar apunhalado.

Também é de 911, da mentalidade anterior à Primeira Grande Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: — quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juizes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.

______________


* O Flamengo foi fundado em 15/11/1895.


[Manchete Esportiva, 26/11/1955]

A la puta que se llevó mis poemas


Algunos dicen que debemos eliminar del poema
los remordimientos personales,
permanecer abstractos, hay cierta razón en esto, pero
¡Por Dios!
¡Doce poemas perdidos y no tengo copias!
¡Y también te llevaste mis cuadros, los mejores!
¡Es intolerable!
¿Tratas de joderme como a los demás?
¿Por qué no te llevaste mejor mi dinero? Usualmente
lo sacan de los dormidos y borrachos pantalones enfermos en el rincón
La próxima vez llévate mi brazo izquierdo o un billete de cincuenta,
pero mis poemas no.
No soy Shakespeare
pero puede que algún día ya no escriba más,
abstractos o de los otros;
Siempre habrá dinero y putas y borrachos
hasta que caiga la última bomba,
pero como dijo Dios,
cruzándose de piernas:
"veo que he creado muchos poetas
pero no tanta poesía."

Charles Bukowski

Cartas a Theo, a Bíblia

Londres, enero de 1874


Veo que te interesas por el arte y esto es una buena cosa, viejo. Me alegra que te guste Millet, Jacques, Schreyer, Lambinet, Frans Hals, etc.; porque como dice Mauve, «es algo» .

Sí, el cuadro de Millet, el Angelus del anochecer, «es algo», es magnífico, es poesía. Con cuánto gusto hablaría todavía de arte contigo, pero no tenemos más que escribirnos con frecuencia; encuentra bello todo lo que puedas; la mayoría no encuentra nada suficientemente bello.

Escribo aquí abajo algunos nombres de pintores que me gustan particularmente: Scheffer, Delaroche, Hébert, Hamon, Leys, Tissot, Lagey, Boughton, Millais, Thijs Maris, De Groux, De Braekeleer, Millet jr., Jules Breton, Feyen-Perrin, Eugène Feyen, Brion, Jundt, George Saal, Israels, Anker, Knaus, Vautier, Jourdan, Compte- Calix, Rochussen, Meissonnier, Madrazo, Ziem, Boudin, Gérome, Fromentn, Decamp, Bonington, Díaz, Th.Rosseau, Troyon, Dupré, Corot, Paul Huet, Jacque, Otto Weber, Daubigny, Bernier, Emile Breton, Chenu, César de Cock, señorita Collart, Bodmer, Koekkoek, Schelhoyt, Weissenbruch, y last not least Maris y Mauve. Pero continuaría así no sé cuánto tiempo, y faltan los viejos, y estoy seguro todavía de haber omitido algunos entre los mejores.

Amsterdam, 3 de abril de 1878

He seguido reflexionando sobre el tema de nuestra conversación e involuntariamente he pensado en las palabras «somos lo que éramos ayer». Esto no significa que se deba marcar el paso y no tratar de desarrollarse, al contrario, hay una razón imperiosa para hacerlo y encontrarlo.

Pero para seguir fiel a esa palabra, no se puede retroceder, y cuando se ha empezado a considerar las cosas con una mirada libre y confiada no se puede volver atrás ni claudicar.

Los que decían: «Somos lo que éramos ayer», eran «hombres honrados», lo que resulta claramente de la constitución que han redactado, que subsistirá en todo tiempo y de la cual se ha podido decir que había sido escrita «con el rayo de lo alto» y «un dedo de fuego». Es bueno ser «hombre honrado» y tratar de serlo más y más, y se obra bien cuando se cree que es preciso, para ello, ser «hombre interior y espiritual».

Si se tuviera la convicción de pertenecer a esta categoría, se avanzaría por el camino con calma y confianza, sin dudar del buen resultado final. Había un hombre que un día entró en una iglesia y preguntó: «Es posible que mi fervor me haya engañado, que haya tomado el mal camino y que siga mal, ¡ay de mí! Si me librara de esta incertidumbre y si pudiera tener la firme convicción de que terminaré por tener éxito y vencer». Y una voz entonces le contesta: «Y si tuvieras la certidumbre, ¿qué harías? Haz como si estuvieras seguro y no serás confundido.» El hombre entonces continuó su camino, ya no incrédulo sino creyente, y continuó la obra sin dudar ni vacilar más. Por lo que respecta a ser «hombre interior y espiritual», ¿no se podría desarrollar este estado en uno mismo por el conocimiento de la historia en general y de personalidades determinadas de todos los tiempos en particular, desde la historia sagrada hasta la de la Revolución, y de la Odisea hasta los libros de Dickens y Michelet? ¿Y no se podría sacar alguna enseñanza de la obra de hombres como Rembrandt o de las Malas hierbas de Breton, o Las horas de la jornada de Millet, o la Benedicite de De Groux o Brion o El recluta de De Groux (o si no de Conscience) o los Grandes robles de Dupré, o los molinos y las llanuras de arena de Michel?

Hemos hablado mucho de lo que es nuestro deber y cómo podríamos llegar a algo bueno, y hemos llegado a la conclusión de que nuestro fin en primer término debe ser el de hallar un lugar determinado y un oficio al cual podamos consagrarnos enteramente.

Y creo que estábamos igualmente de acuerdo sobre este punto, que hay, sobre todo, que encarar el fin y que una victoria lograda después de toda una vida de trabajos y esfuerzos, vale más que una victoria lograda más temprano.

El que vive sinceramente y encuentra penas verdaderas y desilusiones, que no se deja abatir por ellas, vale más que el que tiene siempre el viento de popa y que sólo conoce una prosperidad relativa. Porque en quienes se comprueba de la manera más visible un valor superior, son aquellos a quienes se aplican las palabras:
«Trabajadores, vuestra vida es triste; trabajadores, vosotros sufrís en la vida; trabajadores, vosotros sois felices», son aquéllos que llevan los estigmas de «toda una vida de lucha y de trabajos sostenida sin doblegarse jamás». Es necesario hacer esfuerzos para semejarse a ellos.

Avanzamos entonces camino indeffesi favente Deo. En lo que me concierne, debo tornarme un buen predicador, que tenga algo bueno que decir y que pueda ser útil al mundo, y tal vez me convendría conocer un período de preparación relativamente largo que quedara sólidamente confirmado en una firme convicción antes de ser llamado a hablar a otros... Desde el momento en que nos esforzamos en vivir sinceramente, todo será para buen fin, hasta si debemos inevitablemente tener penas sinceras y verdaderas desilusiones; cometeremos también gruesas faltas y haremos malas acciones, pero es verdad que es preferible tener el espíritu ardiente, aunque se deban comenter más faltas, que ser mezquino y demasiado prudente. Es bueno amar tanto como se pueda, porque ahí radica la verdadera fuerza, y el que mucho ama realiza grandes cosas y se siente capaz, y lo que se hace por amor está bien hecho. Cuando quedamos impresionados por uno u otro libro, por ejemplo, tomando al azar: La golondrina, La alondra, El ruiseñor, Las aspiraciones del otoño, Veo desde aquí una señora, Amaba esta pequeña ciudad singular, de Michelet, es porque estos libros han sido escritos con el corazón, en la simplicidad y pobreza del espíritu. Si se tuvieran que pronunciar algunas palabras pero con un sentido, sería mejor que pronunciar muchas que no serán más que sonidos huecos y no costaría nada pronunciarlas por la escasa utilidad que tendrían.

Si se continúa amando sinceramente lo que es en verdad digno de amor y no se derrocha el amor en cosas insignificantes y nulas e insípidas, se logrará, poco a poco, más luz y se llegará a ser más fuerte.

Cuanto más rápido trata de distinguirse uno en el dominio de alguna actividad y en algún oficio, y se adopta una manera de pensar y de obrar relativamente independiente, y más se sujeta a reglas fijas, más firme se hará el carácter y no habrá por ello que sentirse disminuido.

Hacer esto es de sabios, porque la vida es corta y el tiempo pasa ligero; si nos perfeccionamos en una sola cosa y la comprendemos bien, adquirimos por añadidura la comprensión y el conocimiento de muchas otras cosas.

A veces conviene ir hacia el mundo y frecuentar los hombres pues uno se siente allí obligado y llamado, pero el que prefiere permanecer solo y tranquilamente en la obra y sólo quisiera tener muy pocos amigos, es el que circula con más seguridad entre los hombres y en el mundo. No hay que fiarse jamás al hecho de no tener dificultades y preocupaciones y obstáculos de ninguna naturaleza, pero no hay que hacerse la vida demasiado fácil. Y hasta en los ambientes cultivados y en las mejores sociedades y en las circunstancias más favorables, hay que conservar algo del carácter original de un Robinson Crusoe o de un hombre de la naturaleza, jamás dejar apagar el fuego de su alma, sino avivarlo. Y el que continúa guardando la pobreza para sí y la ama, posee un gran tesoro y oirá siempre con claridad la voz de su conciencia; el que escucha y sigue esta voz interior, que es el mejor don de Dios, concluirá por encontrar en ella un amigo y no estará jamás solo...

Que esté allí nuestro destino, muchacho, que tu camino sea próspero y que Dios esté contigo en todas las cosas y te haga triunfar, es lo que te desea con un cordial apretón de manos en tu partida, tu hermano que te quiere

Vincent

Mouchette


(...) Now I'll tell you something about Mouchette. It starts with a friend who sees the girl sitting and crying, and Mouchette says to the camera, how shall people go on living without me, that's all. Then you see the main titles. The whole picture is about that. She's a saint and she takes everything upon herself, inside her, everything that happens around her. That makes such an enormous difference that such people live among us. I don't believe in another life, but I do think that some people are more holy than others and make life a little bit easier to endure, more bearable. And she is one, a very, very simple one, and when she has assumed the difficulties of other human beings, she drowns herself in a stream.

Ingmar Bergman

Possuídos


Dans un motel de l’Amérique profonde, une jeune femme sentimentalement à la dérive rencontre un homme qui serait poursuivi par l’armée après s’être évadé d’un laboratoire. Difficile d’en raconter plus sans déflorer l’intérêt du film qui est essentiellement basé sur le mystère de l’intrigue et le jusqu’au boutisme de la narration. Bug est un grand film sur la paranoïa dans lequel la froideur clinique, le refus de toute prise de parti de la part du metteur en scène instaure le doute jusqu’à la fin. Du coup, le film a un côté exercice de style démiurgique mais le personnage de la femme est suffisamment bien écrit et interprété (magnifique Ashley Judd) pour exister à l’écran autrement que comme un pantin soumis aux intentions de l’auteur. Brillant.

Christopher Fouchet

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O importante é aquilo que eu vejo a partir do
que o ator “dá”, segundo um processo pessoal
dele, que não me diz respeito. Quando Emanuelle
[Béart] me propõe alguma coisa, ela não vem falar
comigo dizendo “E se eu fizesse isso...?” Ela faz.

Em seguida eu vejo ela interpretar – não no visor
da câmera (eu sei muito bem o que ela filma,
conheço sua posição e sua óptica, que é quase
sempre a mesma) – e posso reagir em relação à
realidade, a uma matéria que existe.

Essa realidade, essa “matéria”, é Emanuelle atuando.”
“O fato de eu assistir a tantos filmes parece de fato
assustar as pessoas. Muitos cineastas fingem que
nunca vêem nada, e isso sempre pareceu muito
estranho para mim.

Todo mundo aceita o fato de
que escritores lêem livros, escritores vão a
exposições e inevitavelmente são influenciados
pelo trabalho dos grandes artistas que vieram
antes deles, que os músicos ouçam música antiga
além das coisas novas... Então por que as pessoas
acham estranho que cineastas – ou pessoas que
querem tornar-se cineastas – vejam filmes?

Quando você vê os filmes de certos diretores,
você pensa que a história do cinema começa para
eles em torno dos anos 80. Os filmes deles
provavelmente seriam muito melhores se eles
tivessem visto um pouquinho mais de filmes, o
que vai contra aquela idéia estúpida de que você
corre o risco de ser influenciado se assistir filmes
demais.

Na verdade, é quando você vê muito
pouco que você corre esse risco. Se você vê muita
coisa, você pode escolher os filmes pelos quais
você se influencia. Às vezes a escolha não é
consciente, mas na vida há coisas que são mais
poderosas do que nós, e que nos afetam
profundamente.

Se eu sou influenciado por
Hitchcock, Rossellini ou Renoir sem perceber,
melhor pra mim. Se eu fizer algo sub-Hitchcock, já
fico muito feliz com isso. [Jean] Cocteau
costumava dizer: ‘Imite, e o que é pessoal vai
aparecer eventualmente apesar de você. Dá
sempre pra tentar.”

Jacques Rivette

sábado, 19 de dezembro de 2009

Da Razão

"(...) A última tentativa da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam. Revelar-se-á fraca se não chegar a conhecer isso. É preciso saber duvidar onde é preciso, afirmar onde é preciso, e submeter-se onde é preciso. Quem não faz assim não entende a força da razão. Há os que pecam contra esses três princípios, ou afirmando tudo como demonstrativo, não precisando ser conhecido como demonstrações; ou duvidando de tudo, não precisando saber onde é necessário, submeter-se; ou submetendo-se a tudo, não precisando saber onde é necessário julgar."

Pascal.
J'ai travaillé à la fois de façon plus acharnée et d'une façon plus dégagée, plus libre, plus impulsive. J'aime que vous sentiez que je me suis attaché à la forme. Naturellement, mes non-acteurs vierges de tout art dramatique, ne parlent pas plus qu'il le faut et la voix humaine, le plus beau des bruits, prend place naturellement dans de monde des bruits qui fait pendant au monde des images. Dans mon prochain film la bande-son aura, je le voudrais, plus d'importance que dans celui-ci. Enfin, en tout cas, aura plus de mon attention et de ma sensibilité. J'ai dit et écrit il n'y a pas tellement longtemps que les bruits devaient devenir musique. Aujourd'hui, je crois qu'un film tout entier doit être musique, une musique, la musique de tous les jours, et je me suis surpris, dans ce film, L'Argent, lorsqu'il était projeté au montage, ne percevant que les sons, ne percevant pas les images qui défilaient devant mes yeux (...). C'est vrai je fais exprès d'ignorer la veille ce que je ferai le lendemain, afin d'avoir une impression spontanée très forte. Si travail égale trouvailles, on m'en fait aucune si on prépare tout à l'avance. Je crois à cette instantanéité.

Robert Bresson, em conversa com Serge Daney e Serge Toubiana, Cahiers du cinéma nº 348-349, Junho-Julho de 1983

A Minha Certidão


Por João César Monteiro


Nasci aos 2 de Fevereiro de 1939, na Figueira da Foz.

Tive infância caprichosa e bem nutrida, no seio de uma família fortemente dominada peio espírito, chamemos-lhe assim, da 1ª República. Escusado será dizer que abundavam os dichotes anti-clericais, muito embora o meu pai desejasse que eu viesse a seguir a carreira eclesiástica. Em suma: não se percebia nada. Pelo menos à primeira vista.

Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Tendo finalmente conseguido dissipar toda a fortuna na satisfação de brutais apetites, o meu garboso pai veio a falecer vitimado por cruel ataque cardíaco, deixando-me, perplexo e sem um chave, a coçar a cabeça. Era chegada a hora de dar o corpinho ao manifesto, como a maior parte das pessoas. Filho que era de meu pai, atravessei senhorialmente muitos e variados empregos mas em breve me apercebi que já não podia olhar o mundo da mesma maneira. Fui até Paris para ensaiar até onde me era possível ir. Não me era possível ir muito longe. Meses depois, «ayant connu pas mal de choses», era repatriado.

Em 1960, encontrei o sr. Seixas Santos, que teve a bondade de me ensinar um pouco do muito que sabe de cinema. O sr. Vasconcelos andava ao mesmo e parecia fazer progressos que, infelizmente (para ele), o futuro ainda não comprovou.

No ano seguinte, trabalhei como assistente de realização do sr. Perdigão Queiroga e admito que poderia ter aprendido mais qualquer coisinha se não tivesse sido tão presunçoso.

Em 1963, na injusta qualidade de bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, parti para Londres a fim de frequentar a London School of Film Technique. Suponho que nunca por aquela escola passou aluno tão mau, mas nesse passo não tive grandes culpas no cartório: é que de facto os ingleses não nasceram para o cinema. Aliás, ainda não percebi muito bem para que é que os ingleses nasceram. Deve com certeza ser pela mesma razão que nasceram os percevejos, as baratas e o pão integral, vulgo pão que o Diabo amassou. A estadia em Londres, essa foi extremamente divertida, sobretudo no salutar plano das doces amizades; contudo, no regresso à Pátria, o meu pavoroso aproveitamento escolar foi muito sentido, como vergonhosa acção, por provincianas carpideiras a quem nunca passará pelas cabeças, tão chorosas dos mal gastos dinheirinhos da Gulbenkian, que a estupidez e a incompetência assentam arraiais em qualquer parte do mundo, inclusive no coração de Londres, sob o pomposo nome de London School of Film Technique.

Em 1965, conheci o Paulo Rocha e os seus «Verdes Anos», o Fernando Lopes e o seu «Belarmino». Tomei-me de amizade pelo Fernando e de amores pelo filme do senhor Rocha, cujos hábitos de anacoreta o tornavam pouco acessível.

Nesse mesmo ano, tentei pôr de pé um projecto de filme em 16 m/m intitulado «Quem espera por sapatos de defunto morre descalço». Dois dias de filmagens e rabinho entre as pernas. Falta de xis. Esse ano negro não findaria, no entanto, sem que deixasse a meio o primeiro filme publicitário que me enfiaram nas unhas: de como, graças ao Não-sei-quê, fazer desaparecer em três penadas o mau cheiro do sovaco, e me internassem num hospício para acalmar as febres.

De novo na vida civil, os meus excessos uitra-românticos, temperados pela mais nobre profundidade sentimental, tiveram enfim (ai filhas de Sidon) a justa consagração, o que não me livrou de amouchar durante um ano como escriba de Filmes Castello Lopes, Lda.

Em 1968 após um reconfortante período em que descobri que mães há muitas e pai só um, o celeste, dei mostras de, para além do instinto de conservação, possuir muitos outros bons instintos, e fui finalmente recomendado ao produtor Ricardo Malheiro Foi, pois, na mais desregrada euforia que fiz o filmezinho sobre Dona Sophia. Pouco tempo volvido (ó desgraça!), o Malheiro ia à falência ou o que vinha a dar ao mesmo, a falência ia ao Malheiro. Sem grande proveito, tentei ainda a publicidade Desesperadamente. Três ou quatro filmes, uma viagem, hélas! à Guiné, e disse.

No ano seguinte, estimulado por algumas boas vontades (saudades), resolvi repegar no projecto «Quem espera por sapatos de defunto morre descalço», cujas filmagens se arrastaram ao longo de dois anos. Numa altura em que eu já deitava o filme pelos olhos, a Fundação Gulbenkian concedeu-me (obrigadinho) um subsídio de $$$$$$$$$$… 180 contos, divididos em 3 prestações. Aqui, tive a tentação de dar uma volta. Pedi ao Vasconcelos para filmar dois planos que faltavam ainda ao filme, e fui. Itália e a inevitável Paris. Esgotada a phinança, voltei para acabar o filme, receber a última prestação e partir outra vez, ora de comboio, ora à boleia, consoante a inspiração: Barcelona, Marselha, Florença, Milão, Como, Cernobbio, Paris.

Entretanto, o filme começou por ser relativamente mal recebido Junto do Mecenas (quereriam ópera por 180 contos? ), continuou pateado num festival no Sul de Espanha e foi friamente acolhido pelos críticos presentes em Nice, aquando da chamada Semaine du Jeune Cinéma Portugais. Foi pena, porque me teria dado jeito, sobretudo no que toca à fruição de algumas benesses locais, mas já que não pôde ser, paciência! Tirando isso, aproveitei a estadia niceoise para comprar um lindo fato de banho de duas peças com a nota de 100 francos que o João Bénard me emprestou, e ameacei partir uma garrafa de tinto na cabeça do Cunha Telles que, impensadamente, me chamou oportunista. Não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário, mas ser insultado por um manhoso negociante é coisa que me põe fora de mim. Detesto a promiscuidade e ensinaram-me a guardar escrupulosamente as distâncias. Por uma única e bem simples exigência: a de manter intacta e intocada a minha pessoa, para além da consciência de todos os meus erros e imperfeições. Levo, as mais das vezes, esta fantochada com o riso no costado, mas não é por acaso que, cada vez mais, me dou com menos pessoas.

Arrumados definitivamente os «Sapatos» iniciei, no Verão passado, «A Sagrada Família», que espero terminar por estes dias. Presumo que não lhe estará reservada melhor sorte que a do filme anterior, mas devo confessar que a considero uma experiência relativamente importante, se não, e com certeza que não, no plano global de um cinema português, pelo menos no plano particular do meu próprio cinema, e na exacta medida em que, por um lado, discute e corrige dialecticamente o filme anterior e, por outro, prepara já o filme seguinte.

O filme seguinte chama-se «A Tempestade» e será perpetrado numa Arrábida pintada a Robbialac se, como se espera, a edilidade local não levantar intransponíveis obstáculos. Quanto mais não seja, há que atender aos relevantes serviços que a prestimosa tinta, que é só a que mais pinta e que mais dura, tem prestado ao colorido da Nação.

Que pensar de tudo isto? Em primeiro lugar, que a vida está má para os pobres. Depois, que, nisto ou naquilo, vivemos todos muito ocupados, inclusive na falta de ocupação. Por último, que enquanto, pela parte que me toca, passo o tempo, como agora e aqui, a acariciar o meu dilatado egozinho e a fornecer de mim imagens razoavelmente aliciantes, como estas, existem pessoas bem mais obscuras que, discreta e devotamente, se vão ocupando de mim e do meu glorioso destino, o que, aliás, não é novo. Parece que tem sido uma constante da História.

Assim sendo, resta-me reconhecer a solidão moral de uma prática cinematográfica cavada na dupla recusa de ser uma espécie de carro de aluguer da classe exploradora e, o que é mais grave, de trocar essa profunda exigência por toda e qualquer forma de demagogia neo- fadista que transporte e venda a miserável ilusão de servir, por abusiva procuração, interesses que não são os seus.

in « & etc » n.° 4,
de 28 de Fevereiro de 1973

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

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O Juiz Ladrão


Por Nelson Rodrigues


De vez em quando, eu esbarro num saudosista. É um sujei¬to esplêndido, que vive enfiado no passado. Direi mais: — vive feliz e realizado no passado como um peixinho num aquário de sala de visitas. E convenhamos que isto é bonito, é lindo. Outro dia, um deles atracou-se comigo no meio da rua; arrastou-me para o fundo de um café, e, lá, com o olho rútilo e o lábio trêmulo, pôs-se a falar de Marcos de Mendonça, o “Fitinha Roxa”; da “espanhola”; do assassinato de Pinheiro Machado e do campeonato que o Botafogo tirou em 1910. Mas, nos vinte minutos da conversa retrospectiva, já lhe pendia do beiço uma grossa, uma espuma bovina, uma baba elástica. De mim para mim, compreendi essa nostalgia, louvei essa fidelidade ao passado. Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.

Por exemplo: — o futebol antigo. Era, a meu ver, um fenômeno vital muito mais rico, complexo e intrincado. Hoje, os jogadores, os juizes e os bandeirinhas se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Não encontramos, em ninguém, uma dessemelhança forte, crespa e taxativa. Não há um craque, um árbitro ou um bandeirinha que se imponha como um símbolo humano definitivo. Outrora havia o “juiz ladrão”. E hoje? Hoje, os juizes são de uma chata, monótona e alva honestidade. Abrahão Lincoln não seria mais íntegro do que Mário Vianna. E vamos e venhamos: — a virtude pode ser muito bonita, mas exala um tédio homicida e, além disso, causa as úlceras imortais. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera.

Mas ponha-se um árbitro insubornável diante de um vigarista. E verificaremos isto: — falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista. O profissionalismo torna inexeqüível o juiz ladrão. E é pena. Porque seu desaparecimento é um desfalque lírico, um desfalque dramático para os jogos modernos.

Vejam vocês que coisa melancólica e deprimente: — um jogo de futebol tem 22 homens. Com o juiz e os bandeirinhas, 25. Acrescentem-se os gandulas e já teremos um total de 29. Vinte e nove homens e nem um único e escasso canalha, nem um único e escasso vigarista! Eis a verdade, que levaria um Balzac ao desespero e à úlcera: — as condições do futebol contemporâneo tornam impraticável a existência do canalha. Ou por outra: — o canalha pode existir, mas contido, frustrado, inédito, sem função e sem destino.

Mas em 1918, 17 ou 16, os gatunos constituíam uma briosa fauna, uma luxuriante flora. Evidentemente, havia as exceções. Mas os salafrários podiam apitar as partidas e com que glorioso, com que genial descaro! Certa vez, foi até interessante: — existia um juiz que era um canalha em estado de pureza, de graça, de autenticidade. Um domingo, ele vai apitar um jogo decisivo. Que fazem os adversários? Tentam suborná-lo. Ora, o canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável. E o homem optou pela solução mais equânime: — levou bola dos dois lados. Justiça se lhe faça: — roubou da maneira mais desenfreada e imparcial os dois quadros. Ao soar o apito final, os 22 jogadores partiram para cima do ladrão. Mas o gângster já se antecipara, já estava pulando muros e galinheiros. Era uma figurinha elástica, acrobática e alada. Isto foi em 1917. O juiz gatuno está correndo até hoje.

[Manchete Esportiva, 31/12/1955]

Balthazar, o Mistério


(...) Figura de Cristo (a paixão, a subida ao Calvário — o que por alguns foi julgado fortemente blasfematório) é figura dum divino sem poder ("quis um burro preto, meio funcionário, meio padre", disse Bresson), de certo modo, figura também do ordenador que o realizador quer ser ("O burro sou eu" — também disse Bresson). É dele que vem a mise-en-ordre, que dispõe as peças soltas desta insólita narrativa (tão soltas que algumas há — como a conversa dos pintores sobre a cascata — que parecem não ter qualquer articulação com o resto). É dele que vem a carga mítica desta obra, polarizando num erotismo latente (referência à mitologia quando Gérard insinua uma relação burro-Marie), que não é dos seus múltiplos e complexos aspectos (inesgotáveis numa folha) nem o menos inquietante nem o menos ambíguo. (...)

João Bénard da Costa, "Folhas da Cinemateca", Cinemateca Portuguesa, Setembro de 2001

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Jean Renoir Entrevista Jean Renoir


— Bom dia, Sr. Renoir. Não lhe colocarei mais do que uma questão: que pensa o senhor do tema?

— Do tema de quê?

— De um filme, claro… ou de uma peça de teatro… ou de um romance… de que havia de ser?

— Podia ser a ginástica matinal, ou o sentimento: o tema do meu amor…

— O objecto.1

— Obrigado.

— Adoro a sua casa.

— (orgulhosamente) Foi construída por Alexandre Dumas — o verdadeiro — quero dizer, o pai.

— Tem a certeza?

— Foi alguém que mo disse.

— Quem?

— Já não me lembro.

— Se Alexandre Dumas tivesse construído esta casa, haveria uma placa comemorativa. (Em tom severo) O senhor exprimiu diversas vezes a sua desconfiança em relação aos temas fortes. Que quer dizer com isso?

— Quanto mais ligeiro é o tema, menos o autor se prende nele.

— Uma comédia?

— Não forçosamente. Digamos um tema ou um assunto que se desenvolve e se termina sem esforço e que deixa ao autor todo o tempo para se ocupar das suas personagens. Pode ser um melodrama como Hamlet (quem é o culpado?) ou um vaudeville como La Serva Padrona (quem seduzirá a rapariga?).

— Estou a ver. Para o senhor, a única coisa que conta é a maneira como o autor exprime a sua personalidade. O senhor é um subjectivista.

— (aterrado) Pelo contrário. É quando o autor tenta mostrar os seus próprios sentimentos que menos consegue exprimir a sua personalidade.

— (satisfeito) Admite portanto a importância do tema.

— Tudo o que eu admito é que o autor se deve dissimular por trás da história que conta.

— É isso que pensa, verdadeiramente?

— Sim. É uma das poucas coisas de que estou certo. Tomemos Alexandre Dumas como exemplo… ele não escreve nunca sobre si próprio. Mas o leitor, por intermédio das aventuras de Chicot, d’Artagnan ou Ange Pitou, aprende a conhecê-lo de maneira íntima; mais do que alguma vez conhecerá o poeta subjectivo que despeja sem pudor tudo aquilo que tem no coração… Pode-se resumir tudo isto em três palavras: “O eu é detestável”.2

— (em tom definitivo) Boileau! O senhor é um clássico.

— Admiro o teatro clássico. Mas pertenço à minha época. Como toda a gente hoje em dia, sofri a influência dos Srs. Freud, Einstein e também, infelizmente, de cento e cinquenta anos de romantismo deprimente. Dumas sabia conservar o nariz acima do nível do mar para respirar. Sabe porque é que ele construiu esta casa?

— Admitindo que foi ele que a construiu.

— (historiador) À época, os muros de Paris seguiam o traçado do lado sul do boulevard de Clichy. Para além deles, havia apenas campos até à aldeia de Montmartre no pico da colina. Foi graças à permissão das autoridades militares que Dumas e os seus amigos puderam abrir uma passagem até àquilo que é hoje em dia a Praça de Pigalle. Aparentemente, esta elevação parisiense era apenas outrora, um terreno de caça às perdizes.

— Voltemos à vaca fria.3 O senhor citou Shakespeare e Goldoni.

— Podia acrescentar Labiche, Molière e muitos outros. Um jovem de boas famílias está noivo de uma jovem de um meio excelente. Não se conhecem. O jovem quer ser amado por si mesmo. Ele e o seu criado trocam as suas roupas. A jovem faz o mesmo com a sua criada. Eis um “quiproquo” e um pretexto suficiente para os melhores diálogos alguma vez escritos.

— O senhor situa-se, portanto, entre Shakespeare e Marivaux?

— Depois de alguns copos de whisky, sem dúvida. Mas na maior parte do tempo contento-me em pensar que se alguém se interessa pela pintura mais vale ir copiar Velasquez para um museu do que ficar em casa a copiar publicidades para salões de beleza. E quem sabe? Cézanne gostava de copiar flores artificiais. Estas coisas são demasiado complicadas… Conheço a maneira de salvar o cinema sem cinemascópio nem cinerama. Todos os realizadores deveriam trabalhar sobre o mesmo tema, um western ou um filme policial, e consagrar-se unicamente a ele durante dez anos. Encontrar-nos-íamos na mesma posição que os Gregos, que tinham o hábito de reescrever as mesmas histórias para um público que as conhecia de cor. Para haver mais segurança, o espectáculo começava por um resumo da acção para o caso de alguém se ter esquecido. Era o coro que se encarregava desta tarefa fundamental, libertando assim o autor e o público das facilidades do suspense.

— O autor, sempre o autor, mas no entanto ele não está sozinho; há também os actores e os técnicos.

— Felizmente, os seus feitos disfarçam os nossos falhanços. Sabe quem deveria ter sido o nosso mestre se tivesse vivido na era do cinema?

— (irritado) Alexandre Dumas. Mas ainda não respondeu à minha questão. Que pensa do tema?

— Acontece que duas maçãs em cima de uma mesa são um tema melhor do que Átila, o rei dos Hunos. Mas para conseguir qualquer coisa com duas maçãs, é preciso um Cézanne. Façamos então os filmes que o público deseja. Como diria Jouvet: ”A nossa primeira regra é ter sucesso”. Pode ser que um dia, um Cézanne nasça entre nós.


In The Observer Film Exhibition: “Sixty Years of Cinema”, Londres, Pall Mall East, 1955.
Traduzido por Luís Miguel Oliveira para o catálogo da Cinemateca Portuguesa dedicado a Jean Renoir em 1994.

_________

1 brinca com o duplo sentido da palavra “sujet”, que pode querer dizer “tema” ou “assunto” mas também pode significar “sujeito”. (N. do T.) / 2 No original: “Le moi est haissable”. (N. do T.) / 3 No original: “Revenons sur nos moutons”. (N. do T.)

Máximas do Amor por La Rochefoucauld


A duração das nossas paixões não depende mais de nós que a duração da nossa vida.

(La durée de nos passions ne dépend pas plus de nous que la durée de notre vie.)

O ciúme se alimenta das dúvidas, e ele vira furor, ou ele acaba, logo que se passa da dúvida à certeza.

(La jalousie se nourrit dans les doutes, et elle devient fureur, ou elle finit, sitôt qu'on passe du doute à la certitude.)

Se existe um amor puro e isento de mistura com nossas outras paixões, só pode ser aquele que está no fundo do coração, e que nós mesmos ignoramos.

(S'il y a un amour pur et exempt du mélange de nos autres passions, c'est celui qui est caché au fond du coeur et que nous ignorons nous-mêmes.)

Não há disfarce que por muito tempo esconda o amor onde ele está, ou que o finja onde ele não existe.

(Il n'y a point de déguisement qui puisse longtemps cacher l'amour où il est, ni le feindre où il n'est pas.)

No amor, cura-se melhor quem se cura primeiro.

(En amour, celui qui est guéri le premier est toujours le mieux guéri.)

Se nós julgamos o amor pela maior parte dos seus efeitos, ele se parece mais com o ódio que com a amizade.

(Si on juge de l'amour par la plupart de ses effets, il ressemble plus à la haine qu'à l'amitié.)

Só existe um tipo de amor, mas existem mil cópias diferentes.

(Il n'y a que d'une sorte d'amour, mais il y en a mille différentes copies.)

O amor, assim como o fogo, não pode subsistir sem um movimento contínuo, e ele deixa de viver logo que deixa de esperar ou de temer.

(L'amour aussi bien que le feu ne peut subsister sans un mouvement continuel; et il cesse de vivre dès qu'il cesse d'espérer ou de craindre.)

O verdadeiro amor é como a aparição de fantasmas: todo mundo fala, mas pouca gente viu.

(Il est du véritable amour comme de l'apparition des esprits: tout le monde en parle, mais peu de gens en ont vu.)

Quanto mais nós amamos uma mulher, mais perto estamos de odiá-la.

(Plus on aime une maîtresse, et plus on est près de la haïr.)

Existem bons casamentos, mas não existem deliciosos.

(Il y a de bons mariages, mais il n'y en a point de délicieux.)

Há quem nunca se apaixonaria, se não tivesse ouvido falar no amor.

(Il y a des gens qui n'auraient jamais été amoureux s'ils n'avaient jamais entendu parler de l'amour.)

O prazer do amor é amar, e nós ficamos mais felizes pela paixão que sentimos do que pela paixão que provocamos.

(Le plaisir de l'amour est d'aimer, et l'on est plus heureux par la passion que l'on a que par la passion que l'on donne.)

Existem dois tipos de constância no amor: uma que vem de nós acharmos o tempo todo novas coisas para amar na pessoa que amamos, e outra que vem do nosso orgulho em sermos constantes.

(Il y a deux sortes de constance en amour: l'une vient de ce que l'on trouve sans cesse dans la personne que l'on aime de nouveaux sujets d'aimer, et l'autre de ce que l'on se fait un honneur d'être constant.)

Não há paixão em que o amor de si mesmo reine tão soberano quanto o amor, e nós estamos sempre mais dispostos a sacrificar o descanso do que amamos do que a perder o nosso.

(Il n'y a point de passion où l'amour de soi-même règne si puissament que dans l'amour; et on est toujours plus disposé à sacrifier le repos de ce que l'on aime qu'à perdre le sien.)

A graça da novidade é para o amor o que a flor é sobre os frutos; ela lhe dá um lustro que se apaga facilmente, e que não retorna mais.

(La grâce de la nouveauté est à l'amour ce que la fleur est sur les fruits; elle y donne un lustre qui s'efface aisément, et qui ne revient jamais.)

A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes como o vento apaga as velas e acende o fogo.

(L'absence dimiue les médiocres passions, et augmente les grandes, comme le vent éteint les bougies et allume le feu.)

É impossível amar pela segunda vez o que nós realmente deixamos de amar.

(Il est impossible d'aimer une seconde fois ce qu'on a véritablement cessé d'aimer.)

O que faz com que os amantes não enjoem de estarem juntos é que eles falam de si mesmos o tempo todo.

(Ce qui fait que les amants et les maîtresses ne s'ennuient pas d'être ensemble, c'est qu'ils parlent toujours d'eux-mêmes.)


Tradução de Rodrigo Lemos.

Alain Bergala: Hoje, Godard diz que não escreve nem três linhas, pois quer procurar tudo nos livros. Grosso modo, ele faz colagens de citações. Durante todo o tempo, Godard está sempre folheando algum livro, e apropriando-se de um fragmento. Quando ele lê uma revista, por exemplo, ele arranca uma página e a classifica. Ele rasga livros também. Godard não tem nenhum respeito pelo objeto livro. Se ele encontra uma citação que o agrada, mesmo sendo um belo livro, ele arranca a página e diz: “Isto pode me servir”. Desta maneira, sempre existiram muitos dossiês na sua casa. Godard é alguém que separa fragmentos. Eis como ele lê um livro: não necessariamente do início ao fim, não necessariamente inteiro, mas sempre muito rápido. Todo tempo, ele investiga, procura algo. Quando fazia Histoire(s) du cinèma (História(s) do cinema, 1988-1998), Godard passou algum tempo numa casa de campo de Dominique Païni, diretor da Cinemateca Francesa na época. Païni levava cassetes com filmes para Godard, que os assistia em modo acelerado, somente em busca de um plano. Para ele, “As coisas que contam vão fatalmente cair em cima de nós. Se folhearmos um livro, encontraremos a frase importante”. A premissa de que ele parte é que, se existe alguma coisa que o interessa num livro, ele vai encontrá-la. Desse modo, ele sobrevoa, depois corta, anota, mas esse não é o momento de feitura do filme. Depois, quando ele vai realizar um novo trabalho, ele recorre às suas citações. Godard tem uma espécie de estoque de frases, de textos. Ele não pára. Ele tem muitas coleções. Ele é como um colecionador de frases, de páginas, de imagens, uma espécie de pescador de pérolas. Mas nem sempre é assim. Quando Godard, por exemplo, se depara com o texto Sobre o conceito da história, de Walter Benjamin, ele o lê durante um ano, medita sobre as teses, estabelece uma espécie de relação com o texto, que não é da ordem da separação. Existem textos na sua casa que ele trabalhou durante dez anos...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Super Homens


Por Luis Miguel Oliveira

Os tipos que corriam na fórmula 1 na segunda metade dos anos 70, heróis? No mesmo sentido em que outros miudos de 5 ou 6 anos terão por essa altura escolhido o Super-Homem ou Homem-Aranha. Mas sim, absolutamente. Conto uma história, que não é de resto novidade nenhuma e encontrarão melhor contada em qualquer site enciclopédico sobre desporto automóvel (a Wikipédia também serve).

Em Agosto de 76 Niki Lauda, campeão em título e já em ritmo de cruzeiro rumo ao bicampeonato, tem um acidente gravíssimo no GP da Alemanha. Entre outras lesões, as queimaduras terríveis que toda a gente conhece. Fica em estado crítico, chega a receber a extrema unção. Recupera milagrosamente, mas ninguém dá nada pela continuação da sua carreira de piloto. Estoico, Lauda ainda não tem as feridas cicatrizadas quando se volta a sentar no Ferrari algumas semanas depois, para correr o GP Itália. Faz uma corrida de sacrifício, e chega ao fim inundado em sangue por baixo do capacete. O avanço pontual de que dispunha antes do acidente era tão grande que, mesmo com as corridas a que faltou, para revalidar o título só tem que ir somando uns pontitos. Longe de estar a 100 por cento, é o que vai fazendo, e é só o que tem que fazer quando chega à última corrida, no Japão. Mas chove a cântaros na altura da largada, e os metereologistas não prevêem melhoras. Lauda parte, faz duas voltas, e encosta. Problema mecânico, pensam todos. Não, esclarece ele: abandono voluntário, naquelas condições correr era arriscar a vida desnecessariamente. Lauda perde o título para James Hunt.

Tragédia, reacção, abnegação, avaliação das prioridades, relativização do triunfo, renúncia. Na literatura e no cinema há histórias célebres menos completas do que esta. Quando se tem 6 anos, impressiona e ensina.

Me Gusta Dom Buñuel


He adorado los "Recuerdos entomológicos" de Le Fabre; Me ha gustado Sade; He adorado a Wagner; Me gusta comer temprano, acostarme y levantarme pronto; Me gusta el norte, el frío y la lluvia; Me gusta el ruido de la lluvia; Me gusta verdaderamente el frío; No me gustan los países cálidos; No me gustan el desierto, la arena, la civilización árabe, la india, ni, sobre todo, la japonesa; Adoro los relatos de viajes por España; Me gusta la novela picaresca; Detesto el pedantismo y la jerga; No me gustan mucho los ciegos; Detesto a muerte a Steinbeck; Siento horror a los fotógrafos de prensa; Siento horror a las multitudes; Me gustan "Senderos de Gloria", de Kubrick, "Roma", de Fellini, "El acorazado Potemkin", de Eisenstein, "La grande bouffe", de Marco Ferreri, "Goupi, mainsrouges", de Jackes Becker y "Juegos prohibidos", de Rene Clement; Me gustaron mucho las primeras películas de Fritz Lang, Buster Keaton y los hermanos Marx, "El manuscrito encontrado en Zaragoza", novela de Potocky, y película de Has; Me gustan mucho las películas de Renoir hasta la guerra y "Persona", de Bergman; De Fellini me gustan también "La strada", "Las noches de Cabiria", "La dolce vita"; De Vittorio de Sica me gustaron mucho "Sciuscia (El limpiabotas)", "Umberto D" y "El ladrón de bicicletas"; Me han gustado mucho las películas de Eric Von Stroheim y de Sternberg; He detestado "De aquí a la eternidad"; Me gustan mucho Wajda y sus películas; Me gustaron "Manon", de Clouzot y "Atalante", de Jean Vigo; Me entusiasmó "Portrait of Jenny"; Detesté "Roma, ciudad abierta", de Rosellini; De Carlos Saura, aragonés como yo ... me gustaron mucho "La caza" y "La prima Angélica"; Me gustó "El tesoro de sierra madre", de John Huston; Adoro los pasadizos secretos; Me gustan las armas y el tiro; Me gustan los bastones-espada; No me gustan las estadísticas; Me gustan las culebras y sobre todo las ratas; Siento horror a la vivisección; Me gustaba la ópera; Adoro los disfraces; Me gustan el arte románico y el gótico; Detesto mortalmente los banquetes y las entregas de premios; Me gustan los arenques en aceite; Me gusta la observación de los animales; No me gustan los poseedores de la verdad; No me gustan la psicología, el análisis y el psicoanálisis; Me gustan las manías; Amo la soledad; Siento un profundo horror a los sombreros mexicanos; Me gustan los enanos; No me gusta el espectáculo de la muerte; Entre los siete pecados capitales, el único que detesto verdaderamente es la envidia; No me gusta la política; Detesto la publicidad; Me gustan los claustros; Me gustan los pastelazos.

Excertos de "O Meu Último Suspiro", de Luis Buñuel.

Rapidinha

"Le raccord d’un champ avec son contrechamp est essentiellement dialectique : il recolle ce qui a été massacré par le tournage. On dit que c’est une figure classique, mais on confond le classicisme (marche en avant) avec le conservatoire (canons). Le canon tire réplique après réplique ; mais il n’y a rien avant la réplique, pas une secousse : c’est comme ça qu’on passe le temps dans les comédies moches, américaines ou françaises. On change de plan comme de chemise. (Strip-tease des acteurs.)".

Pierre Léon

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

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Vittorio Cottafavi sobre Atores

“Acho que o ator é um ser que, quanto mais ator ele é, mais sensível, delicado, mais ele deve ser ‘bem levado”. Falo dos verdadeiros atores, pois os que não são, é preciso lutar com eles, pressioná-los pela força. Mas o verdadeiro ator, aquele que está maduro, que tem o desejo de se exprimir, o dom de comungar com o público, a primeira coisa a fazer, é se aproximar dele com amor, com interesse, compreendê-lo, até mesmo seus defeitos. Não lhe dar porradas, fazer pressões. Tomá-lo pela mão, ajudá-lo, adulá-lo, dar-lhe segurança, a alegria de se exprimir e lhe dizer: “Sim, sim”, mesmo se às vezes seria preciso lhe dizer não. O “não” , é preciso dizê-lo em certas circunstâncias, não em outras. É preciso se explicar longamente, sempre pronto a renunciar ao que se pretendia obter, se não obtivermos sucesso. Enfim, o trabalho com o ator é um casamento. O casamento é um esforço contínuo de “saber levar”, de dom, de sacrifício pelo companheiro de sua vida. Com o ator, é um pouco assim.E sobretudo é preciso evitar lhe impor um “som” que não lhe seja harmônico. O segredo do diretor é utilizar o ator o mais adequado possível a seu papel. Depois de ajudá-lo a aderir; de sustentá-lo, de fortificá-lo sem que se veja o esforço. Isto para os atores realmente atores.

Há também aqueles que possuem apenas uma profissão. Pode-se obter muito deles, mas é um outro trabalho. Um trabalho no plano do profissionalismo. Eles possuem um profissionalismo tão sólido que podemos explicar claramente tudo o que desejamos , e eles procuram te dar. Ajustamos um pouco mais forte, um pouco menos, mais à direita, um pouco mais à esquerda, até que a expressão adira ao personagem. Podemos trabalhar com esses como quando conduzimos um carro: mudamos de velocidade, desviamos o volante. Em um certo sentido, para o diretor, estes atores profissionais dão mais satisfação que os atores “atores”, ou seja, os atores poéticos.”

Jazz Discography Project


Para quem deseja um bom guia de JAZZ, aqui é o lugar: www.jazzdisco.org/

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